Na base do conhecimento está o erro

Latest

Galambices (5)

galambices

Advertisements

Raquel Varela à beira-mar

Existirá sempre que se comporte como o velho do Restelo, estático, à beira-mar, que ignora a dinâmica e a beleza do esplendor que pulsa para além do horizonte. O liberalismo é um desses pulsares.

Raquel Varela considera que a Iniciativa Liberal (IL) é ou está na extrema-direita. A veracidade da afirmação pode depender do ponto de observação e da distância face à linha do horizonte. Vamos testá-la.

Primeiro, presumindo que a Raquel Varela está a fazer considerações políticas e ideológicas, vamos recorrer à ciência política e fazer uso de um sistema que resulta, particularmente, dos trabalhos de Leonard W. Ferguson (1950), Hans Eysenck (1956), Milton Rokeach (1973) e Hannah Arendt (1951), o espectro político.

O espectro político é um sistema que caracteriza e classifica as diferentes posições políticas através de um ou mais eixos. Neste sistema é comummente aceite que o socialismo e as suas variações ficam à esquerda e que à direita está o conservadorismo e as respectivas variações. E, invariavelmente, tanto a esquerda como a direita terão extremos. O liberalismo e as suas variações ficam no centro do eixo. Ora, defendendo o ideário e os princípios liberais, a IL, que advoga, acima de tudo, a liberdade e a correspondente responsabilidade, é reconhecida como um partido liberal. Logo, neste contexto, a afirmação da Raquel Varela é um perfeito disparate.

Segundo, como estamos a tecer considerações sobre posicionamento(s), creio que será útil ter em consideração outras áreas do conhecimento – geografia e perspectiva – para aprofundar a nossa reflexão. Para tal, faremos uso da linha do horizonte.

A linha do horizonte é uma linha imaginária que está dependente do local onde se encontra o observador e da sua altura. Naturalmente, quanto mais alta for a pessoa, maior será a distância. Por exemplo: para um observador que meça 1,80 metros, de pé, na praia e ao nível do mar a linha do horizonte estará a 4,79 quilómetros de distância. Se assumirmos que a Raquel Varela mede 1,70 metros, então a linha do horizonte ficará a 4,66 quilómetros.

Identificados estes critérios, vamos desenvolver o problema. Para o efeito, precisamos de equacionar uma distribuição parlamentar dos partidos políticos. Assim, uma vez mais baseados no espectro político, é plausível assumir que, no hemiciclo parlamentar, a IL ficará localizada à direita do PSD e à esquerda do CDS, sendo que a distribuição poderá ser, da esquerda para a direita, a seguinte: BE, PCP, Livre, PS, PAN, PSD, IL, CDS e Chega. Estabelecida a distribuição e considerando que o ponto de observação está no local onde se posiciona o Presidente da Assembleia da República, i.e., a uma distância muito próxima, percebemos que, para além dos grupos parlamentares estarem dispostos em curva, a proximidade permite visualizar os deputados individualmente pelo que a separação espacial entre os diversos grupos parlamentares poderá ser mínima.

Para transpor esta distribuição parlamentar para a praia, ao nível do mar, é necessário alterar a forma (curva para recta) e aumentar a distância entre os grupos parlamentares para os distinguir. Assim, determinando um espaço de 666 metros entre cada grupo, e supondo que a Raquel Varela está posicionada à esquerda do BE, então é verdade que a IL está na extrema-direita porque situar-se-á na linha do horizonte da Raquel Varela que, ao atingir o seu limite de visão, ficará impedida de ver os deputados do CDS e do Chega.

Só aqui, nesta hipótese, é que a IL poderá estar na extrema-direita. O leitor mais atento poderá perguntar-se por que razão só neste contexto é verdadeira a afirmação da Raquel Varela? Em primeiro lugar, porque estes valores obedecem à condição imposta pela circunferência do nosso planeta. Se a Raquel Varela estiver na Lua ou Marte, a hipótese deixa de ser verificável. Em segundo lugar, é preciso imaginação (ou, se preferirem, ver para além do horizonte) para considerar este tipo de possibilidade. Finalmente, porque a hipótese é uma fantasia. O objectivo não é a localização espacial, mas antes o posicionamento político. Tal como afirma nos seus valores e princípios, também no Parlamento a IL jamais estará na extrema-direita.

 

Texto publicado no Observador

Keep calm and enjoy socialism

As bandeiras eleitorais socialistas de 2019, são as mesmas de 2009. E voltarão a ser iguais em 2029 porque nenhum socialista prescinde de uma fórmula gastadora.

Comentários lidos num post facebookiano duma amiga socialista (sim, tenho amigos que não são liberais e ainda bem), estão na origem deste artigo.

post em si limitava-se a dizer que a pessoa em questão pagava menos impostos desde que António Costa é primeiro-ministro. Apesar que o aumento da carga fiscal ser inegável e ser reconhecido por Mário Centeno, não é impossível que tal suceda. Mas um caso individual não representa a totalidade dos contribuintes. Porém, surpreendentemente ou não, o entusiasmo de alguns dos comentários demonstrava até que ponto pode ir a cegueira ideológica. Quando outras pessoas afirmavam que pagavam mais impostos, as respostas dos correligionários da autora manifestavam um imenso espanto. Desprezando qualquer argumento, chegaram ao ponto de tentar reescrever a história negando (ou procurando apagar) o magnífico legado da gestão socialista – um pântano e três bancarrotas – que aqui recordo.

Este seguidismo é de estranhar? O caciquismo, para além de implicar o fim da pluralidade, exige obediência cega. Daí que seja por aclamação que usualmente são eleitos os líderes socialistas, particularmente os que têm aura de salvador. Por que razão são ovacionados? Porque são infalíveis. Os socialistas nunca se enganam. Não há deuses no Olimpo. Mas Olisipo está repleta de divindades socialistas.

Note-se que este tipo de apoiante fervoroso de António Costa é o mesmo que apoiou incondicionalmente José Sócrates, esse mítico novo homem político, protótipo do herói socialista moderno, que perante o abismo não hesitou em afundar-nos. Algum socialista rasgou as vestes em angústia pela gestão danosa do Sócrates? Algum socialista pediu desculpa pela bancarrota que nos trouxe a troika? José Vieira da Silva, Augusto Santos Silva e António Costa, que eram membros do governo que afundou Portugal, não o fizeram. Nem o farão.

A gestão socialista já teve titãs, mas nenhum ao nível de Sócrates. Se Hesíodo fosse vivo não sei que lugar reservaria a José Sócrates na “Genealogia dos Deuses”, mas suspeito que o destaque fosse 44 vezes superior aos restantes. E como, infelizmente, Sócrates deixou escola é necessário ter em conta a longevidade da gestão pública de António Costa, cujo corolário, antes da liderança do actual governo, era ter sido número dois de José Sócrates.

Ora, foi precisamente como número dois de Sócrates que António Costa implementou a desastrosa reforma da Protecção Civil, reforma essa que treze anos depois ainda custa dinheiro aos portugueses. Nesse aspecto, gastar dinheiro a mais, os socialistas são todos idênticos. No incumprimento de promessas também. Em 2009, Sócrates prometia não aumentar a carga fiscal. Cinco meses depois faltava à palavra. Em 2015, António Costa afirmava que a austeridade tinha acabado e que iria reverter o aumento de impostos. Contudo, uma das suas primeiras medidas foi aumentar o ISP em seis cêntimos por litro.

Mas há outras semelhanças que fazem de António Costa um Sócrates 2.0 e um príncipe da gestão socialista. Silenciar é uma delas. Sócrates tinha a Manuela Moura Guedes, Costa tem a Sandra Felgueiras. Sócrates tinha os “Magalhães”, Costa tem os “Fernões” (tablets) – já sendo vislumbráveis as salivas pavlovianas com as vendas à Venezuela de Nicolás Maduro. Isto sem esquecer os aeroportos, terceiras travessias do tejo, etc., e, claro, o combate à corrupção. Há décadas que o PS diz que combate a corrupção. Resultados? Nenhum. Porquê? Razões familiares…

Texto publicado no Observador

Evaporações Bloquistas

No bloco de esquerda nada se transforma e tudo se perde. Os princípios e a seriedade também foram vaporizados. Até já são sociais-democratas (Quo vadis, Trotsky?). 

Material de sensibilização, é a melhor definição de promessas da esquerda. As promessas da esquerda não são feitas para serem cumpridas. São feitas #ComPrimos, mas não para cumprir. Aliás, é precisamente esta componente familiar que incentiva a sensibilização. Afinal, não há nada mais nobre do que ajudar a família.

Ora, em tempos de eleições, inflacionada pela competitividade, o material de sensibilização adquire outra característica: multiplicação. Ou seja, todos os dias a esquerda apresenta novas promessas. Trata-se de um manancial tão vasto que só tem rival nas gotas de água que preenchem a Hoover Dam. É precisamente com este pressuposto – fonte de riqueza – que quero abordar o material de sensibilização eleitoral bloquista ou, como os próprios afirmam, social-democrata. 

A líder bloquista, ao defender o seu programa eleitoral, expressou uma profunda (lá está, sensibilização) preocupação com a escassez de água e com a energia. Todavia, ao fazê-lo, – pasme-se ou não – manifestou-se contra o número de barragens e contra a perda de água devido à evaporação.

Aprendi, na escola primária, que o ciclo hidrológico é um movimento circular que envolve três processos: (1) Evaporação [dos corpos d’água (oceanos, rios, lagos e lagunas)] e evapotranspiração (das plantas terrestres e animais); (2) Precipitação, pela condensação do vapor de água do ar (na terra ou no mar) e; (3) Escoamento superficial (em terra e no mar). Assim, onde está a perda? Porém, como terminei a primária há 43 anos, é possível que agora a água evapore para a lua.

Tamanho desconhecimento só pode significar cegueira ideológica. Como bem notou o João Pires da Cruz, para o BE “uma barragem é uma forma de opressão sobre a água!”. Mas nada de pânico. Da mesma maneira que a ciência foi ignorada em prol de políticas identitárias e como a natureza está errada, o bloco irá fazer uma lei para substituir a hidrologia por outra coisa qualquer e proibir perdas com evaporação.

Para Catarina Martins, as barragens não contam para as “questões óbvias do uso eficiente da água”, pois não constituem uma reserva hídrica, não produzem energia hidroelétrica, nem permitem regularizar o caudal de água ao longo do ano. Preocupada com a perda de água, a resposta bloquista é, entre outras coisas, perder ainda mais água.

O bloco de esquerda não é uma alternativa séria. Nas hostes bloquistas nada se transforma e tudo se perde. Os princípios e a seriedade também foram vaporizados, quiçá atomizados. Até já são sociais-democratas (Quo vadis, Trotsky?).

Os bloquistas também não são fonte de riqueza. Longe disso. Quando forem governo, Portugal não se evaporará. Cairá, irremediavelmente, na miséria. E acreditem que os bloquistas só descansarão quando conseguirem a miséria. Não querem ser uma Irlanda, uma Holanda ou um Luxemburgo. Porque diabo gostariam que Portugal fosse um país rico e desenvolvido? Preferem os modelos políticos, sociais e económicos que vigoraram ou vigoram em paraísos como Cuba ou Venezuela, para não recordar a Albânia de Enver Hoxha.

Ah, sim! Catarina Martins também afirmou ser necessário negociar com Espanha os caudais dos rios. Já sabemos qual é a sugestão que o bloco apresentará ao Governo espanhol: acabar com as barragens em terras de Cervantes.

Eis a solução bloquista para o problema da escassez da água e do défice energético: acabar com as barragens. Perante isto, perguntam o que representa o bloco para Portugal? A resposta é evidente. Nada mais e nada menos do que o caminho para a perdição.

 

Texto publicado no Observador

O Socialismo e a intransigente defesa da legalidade.

No Estado Novo havia corrupção, leis feitas à medida, cartéis. E não existia liberdade, responsabilidade, ética. É deveras curioso mas, considerando a realidade de 2018, devemos viver no Estado Velho!

Algumas notas introdutórias são necessárias para a compreensão desta reflexão. Primeiro, ética tem origem na palavra grega ethos que significa «costume superior» ou «portador de carácter» abrangendo pensamento e comportamento. Segundo, a maioria das pessoas desconhece que Adam Smith antes da Riqueza das Nações escreveu a Teoria dos Sentimentos Morais, cujo objecto de análise é a filosofia moral através do carácter. Sendo complementares não é possível dissociar os conceitos destas duas obras. Terceiro, a liberdade é um valor e não um instrumento ou um mecanismo. A liberdade é o mais alto dos valores e dela decorre toda a responsabilidade.

Sabemos que o socialismo opta pela igualdade em detrimento da liberdade. Ora, exigindo a liberdade responsabilidade e responsabilização, esta não é possível sem sustentação ética. Logo, a ética não é um requisito fundamental para o socialismo.

Meu artigo no Observador. Podem continuar a ler aqui!

No país dos seis minutos e 47 segundos

Como é que um governo sem estratégia faz? Cobra impostos. Cada vez mais. Se Centeno fosse um operativo de um qualquer serviço de informações no universo “fleminguiano”, chamar-se-ia: Tax. Mo(o)re Tax!

No país dos seis minutos e 47 segundos o vocabulário é deslumbrante, conciso e adequado à manipulação… perdão, informação dos súbditos… perdão, contribuintes. A austeridade é uma alma penada que só assombra o passado. Segundo a retórica oficial, os vocábulos da ordem são cativações e receita fiscal. Não existiu nenhum édito sobre o significado dos mesmos, mas Mário Centeno brande-os e utiliza-os como verdadeiros instrumentos da neo-austeridade socialista. Porém, esta neo-austeridade é virtuosa. Porquê? Porque é da esquerda “geringonciana” e porque proporciona resultados primorosos para os quais só foram necessários uns meros esforços: cálculos errados, cobrança de impostos como nunca até então, pouco investimento e atrasos nos pagamentos.

Ainda não vi o presidente do Eurogrupo a corrigir o ministro das Finanças português, mas já ouvi Mário Centeno a corrigir o Eurostat. Será assim tão importante que o défice se tenha ficado pelos 0,92% ou pelos 2,96%? À primeira vista, não. Os milhões de euros injectados na CGD serão sempre um aumento da dívida. Bom seria que não tivessem sido utilizados na recapitalização da CGD.

Meu artigo no Observador. Podem continuar a ler aqui!

No limiar duma (r)evolução?

Os efeitos da robótica não se limitarão à perda de empregos pelos humanos, à aplicação de impostos sobre máquinas ou à eventual introdução dum rendimento básico universal. Há muito mais a considerar.

Francis M. Comford, no ensaio Plato’s Commonwealth (1935), observou que a morte de Péricles e a Guerra do Peloponeso originaram uma separação, irreversível, entre o entendimento dos homens do pensamento e dos homens da politika sobre os princípios de governação da polis. Hannah Arendt aprofundou esta questão (‘The Human Condition’, 1958), ilustrando-a, embora superficialmente conforme a própria reconheceu, com a diferença entre imortalidade e eternidade. Para os gregos, a mortalidade dos homens emerge da sua condição biológica, característica única num universo onde tudo é imortal. Todavia, apesar desta condição, os homens são capazes de registos indeléveis. Já a eternidade requer a centralidade da contemplação metafísica como condição sine qua non, sem a “perversão” de qualquer indício da vita activa, para o atingir da singularidade perfeita.

As implicações do desenvolvimento tecnológico na sociedade, considerando, entre outros, progressos em áreas como a medicina, biotecnologia, nanotecnologia e inteligência artificial (IA), e a frágil preparação dos nossos representantes eleitos relativamente aos possíveis efeitos desta (r)evolução não auguram um bom futuro.

Meu artigo no Observador. Podem continuar a ler aqui!

%d bloggers like this: