Na base do conhecimento está o erro

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Castração química não é patriotismo.

AV Castr

O patriotismo, à semelhança de outros conceitos políticos e filosóficos, é objecto de inúmeras interpretações divergentes e de sobreposições de significados distintos. A mais usual e comum confusão é com nacionalismo.

Para estabelecer uma distinção entre estes dois conceitos, patriotismo e nacionalismo, vou fazer uso das definições de John Emerich Edward Dalberg-Acton (mais conhecido por Lord Acton). Segundo este pensador, patriotismo estava relacionado com os deveres morais que temos com uma comunidade política e, por sua vez, nacionalismo, envolvendo uma dimensão natural e física, ligava-se à raça.

Estas noções compreendem dois dos três elementos do Estado – povo e organização política. Com este ponto de partida não é difícil chegar ao terceiro elemento do Estado – território – que requer a utilização dum conceito que gravita à volta dos dois primeiros: pátria.

Ora, a origem etimológica da palavra “pátria” remete-nos para paterno, ou, neste caso, para terra paterna, independentemente de ser natal ou adoptiva, à qual estamos ligados por profundos laços afectivos, culturais e de pertença histórica. Como tal, ser patriota significa assumir os valores que emergem do legado do tempo.

O Chega tem todo o direito a defender a prisão perpétua e a castração química. Mas, quando André Ventura afirma o seu patriotismo e sustenta essa afirmação na defesa da prisão perpétua e da castração química, algo está profundamente errado.

Não sou licenciado em direito, mas do que sei da temática não creio que exista em Portugal qualquer tradição na prisão perpétua ou na castração química. Antes pelo contrário. Portugal foi um dos Estados percursores da abolição da prisão perpétua.

Apesar da prisão perpétua já não ser o que era nos Estados Unidos (EUA), nem de ter o efeito dissuasor que em tempos teve, André Ventura pode citar o exemplo dos EUA. Porém, ao defender os vínculos afectivos, culturais e de pertença histórica dos norte-americanos, André Ventura está a ser patriota? É evidente que não.

Advogar a mudança dum sistema judicial, incluindo alterações ao código penal, é uma posição legítima, mas jamais representará patriotismo e/ou será ser patriota.

P. S. – Por fim, sobre a castração química direi apenas o seguinte. Não há uma pessoa viva actualmente que não deva gratidão a Alan Turing.


Sobre o bebé abandonado num contentor

“O recém-nascido foi encontrado ainda com vestígios de sangue do parto e do cordão umbilical por um sem-abrigo que ouviu barulho vindo do lixo.”

Independentemente dos motivos, é inaceitável!

Não existe, na minha opinião, qualquer motivo, tragédia ou circunstância que justifique o abandono dum bebé, indefeso, num contentor do lixo. Há sempre uma alternativa, substancialmente mais digna, para as crianças indesejadas.

A eventual falta de fé, seja ela qual for, e o consequente não reconhecimento dum Deus, seja ele qual for, não implica a inexistência dum criador, inevitavelmente duma mãe. Não somos animais e não devemos comportar-nos como tal.

Expresso a minha opinião. E reafirmo que este acto foi do mais hediondo que já vi. A vitima é a criança.

Quanto à redenção? Só pertence à criança.

 


Sobre o liberalismo que a IL defende.

A IL está a ser continuamente atacada por ser liberal nos costumes. Curiosamente, ou não, estes ataques são feitos por apoiantes do Chega. Note-se que o adversário da IL é o socialismo. Todo e qualquer socialismo, incluindo o PSD que Rui Rio afirmou (e bem) ser de esquerda. Não me parece que o Chega seja um partido socialista.

O Chega também não é um partido liberal. Adoptou algumas ideias de liberalismo económico, mas na sua essência impera o conservadorismo. Perante o comportamento que evidenciam alguns dos seus apoiantes são mesmo ultraconservadores e tão intolerantes ou intransigentes como aqueles que dizem combater. Fazendo uso da história, estamos perante potenciais herdeiros do Miguelismo e/ou de pessoas que não se importariam nada de viver numa teocracia católica.

Um Estado conservador, à semelhança dum estado marxista, também procura condicionar a esfera e o comportamento do indivíduo. Como bem sabemos, não existem apenas ditaduras de esquerda.

Dito isto, vamos aos pontos.

Há uma diferença substancial entre uma opção individual e a sua prática dentro dos limites do individuo, que deve ser integralmente respeitada por todos, e querer impor essa opção aos outros como norma, diminuindo a liberdade e visando uma alteração de comportamentos. A minha opção merece o mesmo respeito que é dado a qualquer outra.

Eu vejo o IL a participar em marchas e paradas para defender o critério da opção e responsabilização individual contra a imposição normativa, e não só, do Estado. Algo está errado quando afirmam que há uma adesão à agenda de esquerda.

Será que os homossexuais são todos de esquerda? Ou ser de esquerda é uma condição para a afirmar da opção de sexualidade? Claro que não. O que nos leva à seguinte pergunta. Sabem qual é o principal problema da direita em Portugal: Falta de comparência.

Quando dizem que o eleitorado da IL não está no BE ou no PAN, eu não concordo. É claro que também está. Não totalmente, é certo, mas não deixa de estar. Alguns desses jovens que são votantes no PAN ou no BE, e que não são de esquerda, fazem-no porque na direita não encontram quem responda às suas expectativas. Para além disso, qualquer voto que a IL vá buscar ao PAN e/ou ao BE é menos um voto na esquerda.

Se é verdade que há pouco conhecimento do que é o liberalismo e as suas correntes, também é verdade que a IL tem possibilitado a divulgação das ideias liberais a muitas pessoas. Principalmente aos curiosos que se aproximam de nós.

Por fim, a IL defende um estado mínimo. Não defende o fim do Estado.

 

P.S. – Esta reflexão resulta duma troca de ideias com o João Pereira da Silva, que em boa hora conheci.


Perigo de incêndio

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Recomenda-se aproximação cautelosa


Não, Senhor Ministro. Lamentável é brincar com a memória dos mortos!

Conselho de Ministros

No início deste mês, Bruxelas, Eduardo Cabrita, ministro da Administração Interna (MAI), afirmou em Bruxelas que a criação do mecanismo europeu de protecção civil é “uma prioridade de topo” para o governo português e para os portugueses. Lamentou resposta dada pelo Europa na altura e reafirmou o “nunca mais”.

Contudo, quando proferiu estas afirmações, Eduardo Cabrita já sabia que o concurso público internacional que o Governo Português abriu no final do ano passado, apenas conseguiu atingir 20% dos objectivos a que se propunha. Ou seja, dos 50 meios aéreos de combate a incêndios previstos, só 10 estão contratualizados.

A reacção dada a esta situação é significativa e esclarecedora. O MAI abriu um novo concurso, urgente, para assegurar as 40 aeronaves em falta. Porém, vai gastar o mesmo dinheiro (48,9 milhões de euros) por menos serviços (menos horas de voo, meios aéreos diferentes e alterações ao gel retardante usado para apagar as chamas).

Não sei qual é o entendimento que Eduardo Cabrita tem sobre o “nunca mais” mas, na minha opinião, este tipo de expedientes não honra a memória dos que morreram nos incêndios de 2017.  Nem o futuro mecanismo europeu de protecção civil, nem a referência à resposta da ajuda europeia, ou falta dela, mitigam a responsabilidade do governo pela falta de preparação do dispositivo planeado e, pior ainda, pela decisão de manter um plano de acção que se tinha revelado insuficiente. Muito menos o faz a vergonha que se verifica com o aluguer dos meios aéreos. Antes pelo contrário. Demonstra a irresponsabilidade na gestão do assunto.

P.S. –  Os kamov, herança socialista de 2006, continuam parados a custar dinheiro.


Uma questão de almas

Rui Rio

O PSD (alguns dos seus filiados?) pode até estar disposto a vender a alma para afastar o BE e o PCP do poder. Mas não se pode esquecer que o PS faz parte da esquerda. E tratando-se duma mera questão de almas, é bom ter em mente que a portuguesa é inegociável!

Nada tenho a dizer sobre a vitória de Rui Rio. Os militantes sociais-democratas escolheram o seu líder num acto eleitoral legítimo. No entanto, tendo em consideração as posições que Rui Rio manifestou durante a campanha eleitoral, assim como as suas indefinições, confesso que tenho algumas reservas sobre o futuro. Do PSD, de Portugal e, principalmente, da alma portuguesa.

É perceptível que existe uma teia de interesses e de clientelas no Estado português. Seja por herança ou por padrão de comportamento as semelhanças entre a nossa Terceira República e o anterior regime são inegáveis. Se, durante o Estado Novo havia nepotismo, favorecimento ilícito, compadrio, corrupção, leis feitas à medida, cartéis, etc., então, considerando a nossa realidade, devemos viver no Estado Velho!

Ora, apesar de Rui Rio afirmar que vai ser oposição à frente de esquerda que governa Portugal, a forma como essa oposição se vai materializar gera expectativas e requer ponderação. Respeitar os resultados eleitorais é digno, e é, sem réstia de dúvida, um comportamento distinto daquele que foi recentemente praticado. Mas, deve esse respeito significar validação? No caso de António Costa ganhar as próximas eleições legislativas sem maioria absoluta e sem a capacidade de reproduzir a geringonça, que fará o PSD de Rui Rio? Irá sustentar o governo socialista no Parlamento? Ou irá recuperar o bloco central?

Este cenário é preocupante. Por várias razões: Em primeiro lugar porque o Bloco Central está na origem dos principais fios que tecem a omnipresente teia de interesses e de clientelas. Esperar que uma reedição dessa solução sirva para alterar o actual status quo parece-me ser uma fantasia. Em segundo lugar, decidindo Rui Rio apoiar um governo minoritário de António Costa, que acontecerá à tão necessária separação ideológica entre sociais-democratas e socialistas? O PS nunca esteve tanto à esquerda como agora. E uma das razões para tal é António Costa. Em terceiro lugar, pode um homem que defende rigor e controlo das contas públicas apoiar um governo gastador? Podemos dizer que as negociações seriam duras. E sê-lo-iam. Mas, depois Costa faria o que fez aos restantes parceiros da geringonça, dizendo que sim e fazendo que não. Em quarto lugar, os tempos são diferentes e Rui Rio não é António Costa. Por isso mesmo, Rui Rio não pode esperar que António Costa retribua comportamentos. Perante resultados idênticos aos de 2015, António Costa voltará a escolher o poder e repetirá, com mais ou menos alterações, a geringonça. Pouco lhe importará quem é ou deixa de ser o líder do PSD. Finalmente, porque vivemos tempos em que os valores adquirem uma importância acrescida, vender a alma ao diabo será desastroso. Se o propósito estratégico é apenas substituir os parceiros de governação do PS porque razão devem os portugueses votar no PSD?

Por sua vez, num cenário de maioria relativa do PSD, pode Rui Rio governar com o PS? Mesmo sem António Costa como líder socialista? Creio que não. E também aqui não são razões puramente políticas que sustentam esta conclusão. A nova geração de dirigentes socialistas gosta da aproximação à esquerda. João Galamba não é o único. Pedro Nuno Santos é outro exemplo. Ambos constarão nas listas socialistas às próximas legislativas. Necessitando dos socialistas para governar, Rio corre o risco de perder toda a sua credibilidade. Seria, a todos os níveis, preferível que a coligação fosse feita com o CDS, com quem o PSD partilha mais afinidades. Todavia, é muito cedo para considerar um acordo Rio-Cristas.

Em breve saberemos até que ponto o líder do PSD quer ser diferença, ou melhor, a diferença! A posição do partido na questão da Lei do Financiamento dos partidos dar-nos-á uma das primeiras indicações. E os significados da remodelação interna que se avizinha também não são de negligenciar.

O PSD (alguns dos seus filiados?) pode até estar disposto a vender a alma para afastar o BE e o PCP do poder. Mas não se pode esquecer que o PS faz parte da esquerda. E tratando-se duma mera questão de almas, é bom ter em mente que a alma portuguesa deve ser inegociável!

No que respeita à inegociabilidade das almas, Rui Rio tem perfeita consciência dessa condição. Como tal, não acredito que esteja disponível para prescindir dos seus princípios ou para vender a sua alma. Contudo, como Rio não fará nada sem uma equipa, surpresas não são de excluir.

 


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