Na base do conhecimento está o erro

Democracia e democratas

As recentes contestações de que o governo foi alvo provocaram reacções curiosas. A mais inflamada pareceu-me ser a do Ministro dos Assuntos Parlamentares, o Dr. Augusto Santos Silva.

Visivelmente irritado com a manifestação de protesto, em Chaves, à porta do local onde ia assistir a uma reunião, acusou os manifestantes de “nem sequer saberem distinguir entre Salazar e os democratas”, apontando o «patriarca» de democracia portuguesa – Dr. Mário Soares – como exemplo de distinção, e hasteou, já num dos telejornais do dia seguinte, a bandeira do direito de reunião para o encontro partidário em que participou.

Sobre o direito de reunião, parece-me que o mesmo é igual tanto para um partido político como para um grupo de cidadãos. Já quanto a democracia e democratas cumpre dizer mais algumas palavras.

Apesar do inquestionável contributo do Dr. Mário Soares, que se auto-intitula “pai da democracia”, na luta contra a ditadura, a verdade é que não foi o único que contra ela lutou. Aliás, com o devido respeito, a democracia foi um fruto que lhe caiu do alto, mas, infelizmente, contrariamente a Isaac Newton, o Dr. Mário Soares não estabeleceu nenhum conjunto de leis universais. Antes pelo contrário, optou por um sistema que continua a promover desigualdades entre os cidadãos, uma vez que a organização do sistema político que apoiou praticamente elimina a responsabilidade dos titulares de cargos públicos, o qual, no mínimo limita as liberdades, os deveres e os direitos fundamentais dos portugueses.

Igualmente tenho ouvido ao longo dos anos, o Dr. Mário Soares falar sobre a democracia e a liberdade mas, aparentemente, o Dr. Mário Soares continua a não compreender a totalidade do significado dos termos democracia e liberdade. Para o Dr. Mário Soares, a democracia e a liberdade são a liberdade de escolha. Até aqui tudo bem. O problema é que ambas são mais do que isso porque ter a possibilidade de escolher, e de exercer essa possibilidade livremente, implica assumir a responsabilidade e as consequências das nossas escolhas, coisa que o Dr. Mário Soares pode saber, mas age como se não soubesse.

Estarei a ser injusto? Talvez. Mas vejamos. Numa das eleições autárquicas, o Dr. Mário Soares apelou, na televisão, quando a lei o proíbe, ao voto no seu filho. Ou seja, exerceu livremente o seu direito à liberdade de expressão, mas assumiu as suas consequências? É claro que este exemplo até podia ser desculpável, uma vez que nos referimos a um cenário emotivo, afinal, qual é o pai que não apoia o seu filho? O problema é que não foi a primeira vez que o Dr. Mário Soares teve este tipo de comportamento. Igualmente o fez quando o seu filho não era o candidato.

Será que há democratas mais democratas do que os outros? Ou todos são democraticamente democratas? Semânticas à parte, a gratidão que devemos a alguns deve ser incessante se o comportamento desses uns for constante e exemplar em consonância com os limites estabelecidos pelas leis que eles próprios permitiram.

CHARLES DE MONTESQUIEU disse: “É uma experiência eterna de que todos os homens com poder são tentados a abusar”. Particularizando, enquanto os titulares dos cargos públicos gozarem de privilégios de posição – imunidade – tal instigação será uma realidade e não haverá verdadeira democracia. Liberdade implica responsabilidade. Todos, sem excepção, devem ser responsabilizados pelos actos que decidem e praticam. Por maioria de razão, o devem ser os detentores do poder público.

Já quanto à postura do actual governo, que não gosta de críticas, parece-me ser adequadas as palavras de BORIS PASTERNAK: “Os detentores do poder ficam tão ansiosos por estabelecer o mito da sua infiabilidade que se esforçam ao máximo para ignorar a verdade”.

As manifestações e a contestação estão para durar. Não sou vidente mas, julgo que a possibilidade de, em algum canto mais escondido no largo do Rato, alguém estar a ponderar o Dr. Manuel Alegre como candidato do PS às próximas eleições legislativas tem algo de profético.

21 de Março de 2008 – O Primeiro de Janeiro

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3 responses

  1. Victor

    Excelente artigo!

    Se há pessoa no PS, para além do Sócrates, que não sabe o que é a convivência democrática, é o Ministro dos Assuntos Parlamentares.

    É um mero sabujo!

    2009-09-08 at 11:38

    • VFS

      Victor,

      o problema é que o Alegre poderá ter planos próprios.
      Olha que o Tele-evangelista Louçâ precisa de crescer 🙂

      2009-09-09 at 11:30

  2. Maria Antónia Moreira Anacleto Pereira Leite

    Gostei de ler este artigo. Pela sua escrita, pela sua elaboração e pelo que ele nos transmite de uma maneira tão simples e tão verdadeira.Obrigada.

    2010-10-07 at 21:00

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