Na base do conhecimento está o erro

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As lágrimas de Júdice

A minha desilusão com José Miguel Júdice não é recente. Já vem dos tempos em que Cavaco Silva era Primeiro-Ministro de Portugal. Esta entrevista que deu à WEEKend só reforça a minha impressão dele.

Exprimir o que ele diz não é difícil. Qualquer português que tenha acompanhado a evolução da III República e que tenha memória dirá, com mais ou menos pormenores, a mesma coisa. Eu digo-o e não é de agora. Já em 1986, percebi que o semipresidencialismo estava desgastado. Claro, não sou uma figura pública e por isso poderei aceitar que ao dizer o que diz, José Miguel Júdice possa perder algo. Mas um homem com um percurso como este não está preocupado em perder migalhas, pois certamente já tem o bolo debaixo da mesa. Não estou a dizer que o tenha conseguido ilicitamente, mas que deve ter tido alguma vantagem relativamente a outros nas mesmas circunstâncias, isso é bem provável. Afinal, se, como ele próprio afirma, todos os advogados da sua sociedade se fizeram, então as coisas fazem-se.

José Miguel Júdice também diz que não se arrepende de dizer algumas coisas. Aceito. Mas devia arrepender-se de nunca ter feito nada para mudar o que considerava estar errado. Não acredito que um homem com tamanha experiencia só agora venha defender uma “revolução que mudasse o sistema político” – presumo que se esteja a referir aos sistemas de governo e eleitoral – porque se efectivamente só presentemente percebeu a necessidade de tal mudança, algo está errado.

Que moral tem agora para vir apregoar que se deviam acabar com estes partidos. Será que a sua postura também não contribuiu para os partidos que temos? Que moral tem para vir dizer que o presidencialismo é a solução? Não é a Júdice que compete decidir. O que deveria defender era um referendo nacional que permitisse à população optar entre um parlamentarismo ou presidencialismo. Que moral tem um homem que nunca concorreu a nenhuma eleição vir afirmar que Rui Vilar e Artur Santos Silva são duas pessoas que têm as características para um presidencialismo?

Está a exprimir uma opinião, é certo. Todavia, na minha ideia, se Rui Vilar e Artur Santos Silva são amigos de Júdice, não devem precisar de inimigos. Reparem, Júdice não se chamusca candidatando-se. Queima terceiros sugerindo nomes. Estes é que terão que ir a votos. Ele não! É por isso que até acho ofensivas as evocações que faz de Sá Carneiro. Dizer que a política necessita de pessoas com convicção e não estar disponível para ir ao fogo permite várias conclusões. Uma delas é que Júdice é uma pessoa de outras convicções. O que é legitimo, mas, na minha opinião, triste. Há, efectivamente, lágrimas que não redimem!

Falta a cereja do cimo do bolo.
A determinada altura, uma das intervenções dos jornalistas foi a seguinte: Júlio César dizia: “Há nos confins da Ibéria um povo que não se governa nem se deixa governar”
A resposta de José Miguel Júdice é lapidar: Alguns governam-se bem [risos].

Disso, não tenho a menor dúvida!

Nota final: Inquestionavelmente, Portugal precisa dum novo sistema de governo e eleitoral e de novos partidos. Todavia, também precisa de se ver livre de algumas personalidades.


“O que há-de ser de nós?” O costume … ou talvez não

No seu editorial de ontem, Pedro Santos Guerreiro (PSG) pergunta: “Que há-de ser de nós?”.
Numa alusão ao Portugal que já existia há dez anos e à permanência de determinadas circunstâncias, com a excepção da diminuição da esperança, PSG afirma, e muito bem, que a “notícia somos sempre nós”.

Os portugueses ainda não se sabem notícia. Pelo menos, na primeira pessoa. Infelizmente, andamos alheados da realidade. Já há dez anos o andávamos. Ou será que a corrupção é endémica aos portugueses e aceite naturalmente? É de agora que se confunde política com partidarismo? Sim, é verdade que se verifica um pequeno despertar. Mas, será esse acordar permanente ou assim que nos acenarem com outra cenoura voltamos à regência do comodismo?

A maior parte de nós continuará sentada no sofá a apontar o dedo a quem aparece na televisão. Os portugueses, ou a maioria deles, tem necessidade de duas coisas: primeiro, de culpar alguém pelos seus males e, segundo, do próximo ilusionista. É um modo sequencial de complacência. É a solução mais fácil. É a solução que perpetua o fado português da miséria e tristeza. É preferível chorar a fazer.  Afinal, os portugueses sempre gostaram do Calimero (não é justo, não é justo…!)

Que há-de ser de nós? O costume. Ou talvez não. Felizmente, uma cor emergiu. Que dá passos pequenos mas eficazes. Que dará muitos mais. E não promete a salvação. Apenas trabalho. Porque para mudar o fado é preciso sair da cadeira.

O branco é a cor da paz. Também passará a ser a da persistência.

Nota final: A raiz da mudança está em nós! (já sei que sou repetitivo. Contudo, existem expressões que devem ser repetidas até à exaustão). Se não estão dispostos a mudar, não esperem mudanças. Principalmente, as que desejam!