Na base do conhecimento está o erro

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Restrições ao comércio?

Num mundo globalizado, caracterizado pela abertura económica, onde todos precisam de todos, se há coisa que não é necessária é o proteccionismo. Medidas como esta não ajudam a economia e só revelam que os responsáveis políticos não aprendem.

E por vivermos num mundo assim, é que tenho sérias dúvidas da perspectiva keynesiana, cujo pressuposto de aplicação é um espaço delimitado.


Avisos à navegação (2)

 

Nova crise financeira irá assolar o mundo (aqui).


Avisos à navegação

À atenção dos candidatos às legislativas 2009:

Devido aos excessos que nos conduziram à crise económica mundial, um pouco de prudência e de contenção verbal com os sinais que se vislumbram não será demais. A retoma poderá ser curta.

E mesmo considerando esta possibilidade, há que não cair na tentação da demagogia e não criar falsas expectativas nem à população, nem aos agentes económicos.


Repensar perspectivas

A época actual, no que respeita a temáticas relacionadas com relações internacionais, geopolítica, geoeconomia, etc., está a revelar-se muito interessante.

Consideremos a problemática dos centros de influência mundial. Primeiro, se recordarmos os tempos da Guerra fria, lembraremos que o mundo esteve bipolarmente dividido, em dois blocos, com a predominância de duas superpotências, os Estados Unidos da América (EUA) e a União Soviética e as respectivas conexões de sistemas; segundo, com o colapso do sistema soviético, globo passou a ter uma única superpotência, os EUA; e, terceiro, devido ao desenvolvimento, particularmente económico, daí decorrente, qual Fénix renascida, a divisão bipolar parece estar a regressar.

Quais são as diferenças que podemos observar? Se a nossa análise se focalizar na geopolítica, é facilmente perceptível que a predominância do Atlântico é transversal aos três períodos acima mencionados. No entanto, se os pressupostos de observação forem geoeconómicos, então a bipolaridade é mais inteligível, pois notamos que apesar do centro político mundial ainda permanecer no Atlântico, o centro económico mundial mudou-se para o Pacífico.

Por outras palavras, a globalização teve a consequência de provocar uma dissonância no binómio político/económico e fez com que o mundo contemporâneo seja geopoliticamente visto a partir do Atlântico e geoeconomicamente observado do Pacífico.

A crescente capacidade económica de países geograficamente localizados no Pacífico ou na orla deste, nomeadamente no Índico, coloca algumas questões. Afinal, não é só nos nossos dias que riqueza é poder. Todo e qualquer exemplo histórico de expansão pode ser utilizado para ilustrar esta afirmação. Consequentemente, a possibilidade de uma transferência do centro político mundial para esta região deve ser, pelo menos, encarada e pensada.

E só esta hipótese já levanta problemas consideráveis. Senão vejamos. No caso de uma efectiva deslocalização dos pólos, político e económico, de influência mundial para o Pacífico, no que concerne à transferência dos centros de decisão políticos transatlânticos e internacionais para as imediações para aquela região, os dos EUA serão facilmente deslocáveis, mas para os das Nações Unidas a dificuldade será maior e os da União Europeia (UE) serão quase impraticáveis.

Mas, para já, ainda mais relevante é reter que a União Europeia, que é uma potência económica mundial, terá que se afirmar num mundo economicamente centrado no Pacífico, ou seja, fora da sua zona geográfica, cenário que acontece pela primeira vez na sua história.

Só segundo os prismas acima referidos as elações já são interessantes, mas concomitantemente, também devemos ponderar o ressurgimento da Rússia no palco mundial e a afirmação do Irão como potência regional, e, se preferirem, examinar este mundo com dois centros de decisão distantes segundo as tensões religiosas e as dinâmicas civilizacionais.

Ficará para outra altura a abordagem a esta problemática de acordo com estas duas últimas perspectivas. Por agora, ficaremos pela óptica que temos vindo a desenvolver.

E, na nossa opinião (que já anteriormente defendemos e sustentamos em outros fóruns), para contrariar esta tendência, a Aliança Transatlântica precisa de evoluir no sentido da sua vocação, i.e., uma vez que valores universais estão na sua génese, é chegada a altura de efectivar essa aptidão e de se transformar numa organização mundial.

Há muito mais em jogo do que o aqui considerado. Nos tempos que passam, repensar perspectivas não é um mero exercício intelectual. É uma obrigação. Só assim estaremos preparados quando as probabilidades se concretizarem.

16 de Maio de 2008 – O Primeiro de Janeiro


Metamorfoses democraticas e “guerras energéticas”

Num universo de mundos paralelos, vamos dar asas à imaginação desenvolvendo dois pequenos cenários: No primeiro, abordaremos a democracia na Rússia. No segundo, uma eventual guerra por energia.

1. A sequência de acontecimentos vividos na Rússia democrática parecem estar a surpreender muita gente. Ou melhor, a aparente impunidade com que certos factos ocorrem, sem que nada o possa impedir. O triunfo de Dimitri Medvedev, nas recentes eleições presidenciais, é um exemplo disso. E, apesar dos ecos dos observadores internacionais que referem que este acto eleitoral não decorreu conforme as regras democráticas, particularmente, no que respeita ao tempo de antena de televisão, Medvedev irá tomar oficialmente posse como Presidente Russo.

Os contornos desta ocorrência assemelham-se a um déjà vu. Num mimetismo praticamente perfeito, quase revivemos o ano de 2004. E, naturalmente, na comemoração da vitória, o sujeito principal é o mesmo dos últimos 9 anos, Vladimir Putin.

Putin, Primeiro-ministro recém-eleito, afirmou que não haverá atritos, entre ele e Medvedev, no que se refere à governação do país. Nada de estranho. Afinal, aquele é o guia ou mentor deste. No entanto, não é possível estar sempre de acordo com alguém todos os dias. Como tal, a possibilidade de, mais cedo ou mais tarde, Medvedev deixar de ser uma marioneta de Putin é de considerar. Mas seja por este motivo ou por qualquer outro, a questão que se deve colocar é: será que nos próximos tempos iremos revisitar o acontecimento russo de 31 de Dezembro de 1999?

2. A emergência de novos países, que se confirmaram como potências económicas na cena internacional, acentuou a procura por hidrocarbonetos, recursos energéticos finitos, a nível mundial.

Em 2006, as reservas mundiais de petróleo estavam assim distribuídas: 95% no território de 20 países, desde a Arábia Saudita à Índia, e, no resto do mundo, os remanescentes 5%. Segundo a Associação para o Estudo do Pico do Petróleo e do Gás, o pico do petróleo (modelo matemático do geofísico M. King Hubbert que analisa a extracção e o consumo de petróleo convencional) será atingido daqui a 2 anos, em 2010, não sendo de estranhar a constante especulação em torno do valor do barril de petróleo.

Para uma cultura inteiramente dependente de energia fácil e barata, um decréscimo acentuado na produção e armazenamento de hidrocarbonetos terá consequências astronómicas. Ora, é comummente aceite pelos peritos que o petróleo convencional está praticamente esgotado e que as maiores reservas disponíveis (águas profundas, polar, pesado e de areias betuminosas) são também as mais dispendiosas, tanto a nível da sua extracção como de produção.

Aqui vislumbra-se o grande interesse pelo fundo do Oceano Árctico que várias Nações demonstram e disputam. Claro que nem todas têm a capacidade tecnológica para o explorar. Mas isso não é obstáculo. E, partindo destes pressupostos, também não é fantasia considerar que, se a energia não chegar para todos, alguns irão fazer uso da força para a adquirir ou deter.

Não é apenas a vertente económica que está em jogo. A competência de aplicação e de utilização do poderio militar é que será o cerne da questão. E, muito friamente, à medida que os hidrocarbonetos se esgotam e consomem, antes nós do que os outros.

Sem alternativas energéticas credíveis, paira, ou não paira sobre nós, o espectro da guerra?

6 de Março de 2008 – O Primeiro de Janeiro


Paradoxos

1. Reflexos das conjunturas vividas ou resultado de antagónicos ou diferentes pontos de vista, as ideias que defendemos muitas vezes são reféns das posições que essa mesma razão implica.

Praticamente ninguém aceita ou gosta de ser confrontado com as incoerências próprias. Poder-se-á dizer que tal é humano. Tão comummente humano que é quase compreensível.

O trabalho executado pela presidência portuguesa na União Europeia teve resultados e não foram quaisquer proveitos. As negociações realizadas, que conduziram à assinatura do Tratado de Lisboa, não foram simples e o bom termo das mesmas só nos enchem de orgulho. Pelo menos a alguns de nós. Afinal, como diz o adágio popular, não se pode agradar a gregos e troianos.

Claro que os bons resultados cedo deixam de ser notícia. O que agora anda na boca do mundo é a problemática quanto à realização de um referendo, através do qual a população se pode manifestar. Por um lado, e até um certo ponto, é admissível que aqueles que defendem posições diferentes do Governo utilizem os mesmos meios para se fazerem ouvir. Não é o marketing para todos? Por outro, é inquestionável que a ratificação parlamentar, que os titulares de cargos públicos manifestamente preferem, reacende a questão da distância entre eleitores e eleitos e até que limite estes verdadeiramente representam aqueles.

2. Devido à interligação global, como deverá ser o mundo dividido? Em zonas geopolíticas ou em zonas geoeconomicas?

A organização política do mundo actual, particularmente a da civilização ocidental, é determinada pelo Estado nascido da Revolução Industrial. Ora, o Estado, tal como o conhecemos, há muito que está em crise e declínio. Já não consegue provir os fins para que foi criado, devido a duas situações que caracterizam as democracias ocidentais: primeiro, assim que um candidato é eleito, o seu próprio bem-estar passa a ser a sua primeira prioridade. Em segundo lugar, os grupos de pressão ou lobbies, pela sua acção na defesa dos seus interesses, provocam desvios na condução das políticas sociais governamentais fazendo que com estas percam a perspectiva do bem-estar de toda a sociedade. Consequentemente, o poder do Estado foi depauperado com o aparecimento de agentes sociais que, por um lado, ao assumirem responsabilidades que pertencem aquele, o ajudam, pelo outro, ao roubar-lhe autoridade, o enfraquecem.

Por causa da revolução tecnológica que vivemos, que está a ter o duplo efeito de provocar o colapso das indústrias e do modo de vida, ao mesmo tempo que os substitui por outros completamente novos, o mundo está a mudar e a actual estrutura do Estado apenas subsiste devido à resistência do poder político. Considerando os elementos, social, económico e político do Estado, é precisamente este última que mais resiste e ignora esta mudança, continuando a agir como se o mundo fosse o mesmo. A resistência à mudança é um instinto humano, mas pior do que resistir à mudança é não aceitá-la e, consequentemente, não se preparar para ela, porque a mudança é inevitável. Por isso, o poder político não poderá continuar a ter este tipo postura sob risco de não se adaptar à evolução tecnológica e civilizacional, o que terá efeitos negativos no todo da sociedade.

3. A amplitude de mudança que se nota no dia-a-dia vê-se em situações tão simples como esta. Antes dos avanços tecnológicos que nos proporcionaram, entre outros, os telemóveis, quando se ligava para alguém a primeira pergunta que colocávamos era: Quem fala? Hoje, a pergunta é: Onde estás?

Mas esta mobilidade não deixa de ser aparente, uma vez que a tecnologia também nos deu a virtualidade. Viajar sem nos movermos é outras das possibilidades modernas. Infelizmente, no que respeita às relações sociais, a virtualidade, que para alguns é um verdadeiro santuário existencial, pois aí podem criar vidas que são completamente opostas às reais, provoca a perda de contacto com o semelhante e da vida em sociedade. Logo, e não menos absurdamente, o globo poderá vir a ser composto por mundos individuais dentro das conexões da globalização. Será que o indivíduo acabará por também se distanciar do seu próprio mundo?

10 de Janeiro de 2008 – O Primeiro de Janeiro