Na base do conhecimento está o erro

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Na Encruzilhada: UE, Turquia e NATO

Já foram escritas muitas linhas sobre a possibilidade da integração da Turquia na União Europeia (UE). Mas, numa altura em que as negociações entre as duas partes se arrastam, inclusive estando suspensas em alguns sectores chave, tendo em consideração os acontecimentos vividos no Médio Oriente, em especial no Iraque e às ofensivas do exército turco contra o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), não será perda de tempo reflectir um pouco mais sobre este assunto e equacionar alguns cenários.

Devido à importância da sua posição geográfica, a Turquia é, desde 1952, membro da Aliança Atlântica (NATO). Naturalmente que a data atrás referida remete-nos para o período da Guerra-fria. Não sendo a Turquia um país comunista não é estranhar que, juntamente com a Grécia, ambos os países tenham aderido à NATO e, assim, ficaram mais protegidos das tendências expansionistas da ex-União Soviética. Mas só porque a Guerra-fria já acabou com ela também se foram as tendências expansionistas da Rússia?

Há, desde 1725, na Rússia, um documento que, apócrifo ou não, tem influenciado o seu comportamento como Estado. Nem sequer a Revolução de 1917 e a consequente mudança de regime alterou a execução das ideias nele contidas. Refiro-me ao Testamento de Pedro, o Grande. Sendo que a mudança para o sistema capitalista tem acelerado o seu potencial de crescimento, não é de admirar que o germe da expansão se volte a manifestar.

Ora a Turquia, apesar de ser governada por um partido de natureza islâmica, é um Estado laico. São os militares quem garantem que assim continuará a ser. Como tal, se a sua candidatura à UE for adiada e/ou recusada e na hipótese de um regime teocrático ser estabelecido no Iraque, a Turquia passará a estar muito mais receptiva a uma eventual aliança com a Rússia.

Juntamente com a Turquia são potenciais candidatos à UE, países com uma forte presença muçulmana. Refiro-me à Albânia, Macedónia, Bósnia Herzegovina e Montenegro, países que estão geograficamente localizados entre Estados-Membros da UE, a Eslovénia e a Grécia. Como tal, na eventualidade de um conflito que envolva ocidentais e islâmicos, que género de reacções são de esperar das comunidades muçulmanas destes países? Quais são os tipos de ramificações que estas comunidades possuem com as comunidades muçulmanas em França, Inglaterra, Alemanha e Holanda? E que repercussões devemos esperar nos Balcãs?

Por sua vez, na suposição da transformação do Iraque num regime teocrático, países como a Arménia e Geórgia não ficarão sossegados e irão procurar protecção algures. Supondo que esse apoio virá da Rússia, que efeitos terá no xadrez, não apenas regional mas também mundial, uma aliança que una a Rússia, Turquia, Arménia e Geórgia? Pela mesma ordem de razão é claro que, devido à falta de alternativas, o Cazaquistão, Azerbeijão, Turquemenistão, Quirguistão, Tajiquistão e Uzbequistão também poderão aderir a essa coligação. Afinal, para além da protecção recebida estes Estados também conseguem impedir a sua transformação em regimes teocráticos de matriz islâmica. E, de todos estes países, qual é aquele que, devido ao seu passado histórico, está mais vulnerável a esse cenário? A Turquia, sem dúvida nenhuma.

Convém não esquecer que resultante da sua acção diplomática, particularmente sentida no âmbito da Organização de Cooperação de Xangai, a Rússia foi capaz de recuperar muita da sua anterior influência na região.

E, no que respeita a prováveis perspectivas para o Médio Oriente é prudente ter em mente que o Hezbollah ainda não desistiu do seu sonho de transformar o Líbano num Estado teocrático, que do cenário de guerra civil que se vive no Iraque pode muito bem também emergir um regime teocrático e que o Irão [rodeado por potências nucleares (Rússia, China, Paquistão, Índia e Israel)] não vai abandonar o seu programa nuclear pacificamente. A concretização de qualquer uma destas hipóteses não augura um aliviar de tensão entre ocidentais e árabes. Antes pelo contrário.

Assim, é de considerar que uma adesão da Turquia à UE pode alterar as jogadas do xadrez e teria, entre outras, duas vantagens fundamentais: A primeira, de nível psicológico, permitiria à UE abalar as ideias de superioridade segundo as quais é perspectivada, pelos povos árabes, ao aceitar no seu meio um país de matriz islâmica; a segunda, marcadamente estratégica, tornaria o território da Turquia numa espécie de zona tampão.

No entanto, dificilmente será consensual qualquer decisão que venha a ser tomada neste assunto. Tanto politicamente como historicamente. E, muito recentemente, o Presidente francês reafirmou a sua oposição à entrada da Turquia na UE.

Mas, será que a integração da Turquia na UE sem direito, pelo menos durante um período de tempo nunca inferior a dez anos, às prerrogativas do acordo de Schengen é prejudicial? E qual será o custo da sua não entrada?

Público: 28 de Julho de 2008


Destino: globalização?

Mais uma vez agradeço as reacções dos leitores e as suas opiniões. Tentarei responder às questões que me foram levantadas, interligando-as sempre que possível.

Começo esta reflexão pela seguinte pergunta: Porque é que se fala em globalização e não em mundialização? A resposta, na minha opinião, é muito simples. Associamos o conceito de mundialização aos descobrimentos e à revolução industrial. Por sua vez, a globalização está associada à revolução electrónica, à efectiva redução das distâncias, à comunicação instantânea e à conectividade que caracteriza a sociedade actual, em que um acontecimento numa parte do globo terá repercussões nos seus antípodas, para além de ser televisionado imediatamente. Assim, a globalização, que como muito bem nota, Anthony Giddens “é política, tecnológica e cultural, além de económica”, atinge a sociedade e não apenas uma parte dela. Por isso é que vivemos uma fase de transição na qual emerge uma nova civilização.

Como é evidente, nem todas as civilizações possuem o mesmo grau de desenvolvimento. Portanto, é preciso notar que, em primeiro plano, esta transição civilizacional não é inter-civilizações mas sim intra-civilização, i.e., está, essencialmente, a ocorrer no seio da civilização ocidental. Naturalmente que a nossa civilização não é única no globo, pelo que a segunda percepção a ter é que a mudança civilizacional que experimentamos, a qual nem todos aceitamos ou compreendemos, implica novos comportamentos nas relações com as outras culturas. Consequentemente, se a diferença de progresso já se traduzia na dificuldade de diálogo entre povos, a passagem para um estádio superior de desenvolvimento prejudicará os «compromissos» conseguidos. O mesmo é verificável no comportamento da outra, ou outras, civilização relativamente a nós com a agravante de, em virtude do índice de intelectualidade, as suas reacções serem ainda mais extremas.

Quanto ao Estado-Nação e ao seu papel de primazia no sistema internacional, é preciso reparar que há uma dualidade de preeminência entre o Estado e as Multinacionais ou, se preferirem, entre a política e a economia. Neste sentido, Nicola Yeates refere que enquanto os Estados estão estruturalmente dependentes do capital global o mesmo não se aplica às Multinacionais cuja liberdade é ilimitada. Logicamente, as formas de organização que forem contrárias aos fluxos globalizantes não subsistirão e nem o Estado, em cuja génese está a soberania nacional e o território circunscrito por fronteiras que limitam a eficiência da integração global, escapará a esta determinante. Aliás, sintomático desta observação é a tentativa de promoção da imagem do Estado pelo marketing. Depois do Estado-comercial apareceu o Estado-Marca (The Rise of the Brand State – Peter van Ham). Mas será tal suficiente?

Por fim, convém ter em mente que o Estado resulta de um processo de agregação e que, tal como apareceu, pode esvanecer. Pessoalmente, acho que os parâmetros do desenvolvimento actual estão a levar-nos para o reaparecimento das Cidades-Estado. Mas, isso são contas de outro rosário.

Alvim Toffler mostrou-nos que a resistência à mudança é um instinto humano. Neste pressuposto, é compreensível que, tal como os contemporâneos do Renascimento não se aperceberam dos seus feitos e deles tiveram medo, alguns dos nossos coetâneos manifestem receios afins. Luís de Camões diria que tais clamores são as vozes dos velhos do Restelo, aqueles para quem o progresso e a mudança representam a incerteza e o caos. Já Heraclito lembraria que “nada é permanente, salvo a mudança”. Por isso, pior do que não aceitar a mudança é não se preparar para ela porque ela acontecerá de qualquer maneira. Ou não é a evolução uma das constantes universais?

Num prisma diferente, é indesmentível que progressos científicos como as descobertas marítimas, a dinamite, a máquina a vapor, a luz eléctrica e a bomba nuclear mudaram o planeta tornando-o imperceptível. Nos últimos dois anos, o homem produziu mais saber do que em toda a história da humanidade. Que mundo advirá daqui?

Talvez William Jennings Bryan tivesse razão quando disse: “O destino não é uma questão de sorte – é uma questão de escolha. Não é uma coisa por que se espere – é uma coisa a alcançar”.

5 de Julho de 2007 – O Primeiro de Janeiro