Na base do conhecimento está o erro

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Presidenciais 2011 – (a minha) Análise dos resultados

Como as previsões das sondagens foram, com algumas nuances, confirmadas pelos resultados eleitorais apenas farei alguns acrescentos às leituras que tinha feito às sondagens.

A minha primeira palavra vai para o nível da abstenção que foi registado.
Pode ser que os problemas com o Cartão do Cidadão e o usual comportamento dos portugueses de se informaram apenas na última hora tenha contribuído para este valor (52.47%), mas é, para mim, inacreditável a quantidade de pessoas que não quer decidir sobre o seu futuro e que, consequentemente, permite que sejam os outros a fazê-lo.
O sistema político que vigora praticamente limita a acção dos cidadãos aos actos eleitorais. Logo, não participar …
Quanto aos brancos e nulos, é inquestionável que se verificou um (efectivo) voto de protesto.
Relativamente às presidenciais de 2006, os votos em branco passaram de 54 727 para 191 159. Por outras palavras, os votos brancos aumentaram 349,29%!!!
Por sua vez, os votos nulos passaram de 40 249 para 86 543, representando este número um aumento de 215,01%.
Resumindo, abstenção, brancos e nulos representam 58,66% dos cidadãos portugueses com capacidade eleitoral.
Já anteriormente escrevi sobre este tema e não me canso de o referir. Os políticos portugueses deviam repensar a sua ligação com a população.

Passando às performances dos candidatos, tivemos três derrotados e três vencedores.

Dos três primeiros, Manuel Alegre é o maior derrotado.
Como nunca tive qualquer simpatia por ele, direi que a obtenção de um resultado inferior ao que conseguira em 2006 é uma derrota em toda a linha. Perdeu capital político e social, tanto dentro da sua família política como junto da população que, de certa maneira, traiu ao ter procurado o apoio dos partidos em vez de ter efectivado o capital de cidadania.

Da actuação de Francisco Lopes deve-se realçar o facto de ter conseguido estabilizar o eleitorado comunista. De resto, é mais do mesmo, com a manutenção duma coerência discursiva.

Por fim, Defensor de Moura, revelou-se um homem verdadeiramente deselegante.

Quanto aos candidatos vencedores, começo por referir José Manuel Coelho.
Sinceramente, não sei o que pensar sobre a votação que este senhor conseguiu. Sei que a mesma me preocupa.
É plausível que uma parte da votação alcançada seja um voto de protesto marginal, mas a restante representa o emergir dum fenómeno eleitoral que, diga-se, vai repetir-se e que, é a expressão do aumento da população que é literalmente ignorante.

Sobre Fernando Nobre, (há algumas circunstâncias pessoais às quais não sou indiferente), afirmo o seguinte:
É verdade que não atingiu todos os objectivos a que se propôs – diminuição da abstenção e o atingir da segunda volta, que estavam, principalmente este último, perfeitamente ao seu alcance – mas conseguiu, inquestionavelmente, um óptimo resultado e sai deste sufrágio com um capital que até ontem não detinha.
Se era um homem com um grande carisma social, passa a ter que ser tido em conta na esfera política.
Não sei o que fará no futuro. Como o próprio referiu: “O futuro a Deus pertence”. Contudo, não se deve esquecer que os resultados eleitorais não oferecem garantidas ad eternum.
(Nota pessoal: Fernando Nobre não conseguiu ser apelativo ao eleitorado de centro-direita. Assim, independentemente do mérito que lhe deve ser reconhecido, ontem perdeu-se uma oportunidade de realmente se fazer história.)

Finalmente, o vencedor da noite.
Não há dúvida que Cavaco Silva é percepcionado como um elemento de estabilidade e de segurança pelos portugueses. O seu registo eleitoral confirma-o e ontem não foi excepção.
Contrariamente ao que fiz em 2006, não votei em Cavaco Silva. Não apreciei o seu primeiro mandato. É certo que o Presidente da República é um “moderador constitucional”, mas, na minha opinião, a opção por uma perspectiva redutora das prerrogativas constitucionais que o cargo detém não é positiva para o país.
Mas há que o felicitar pela vitória. E aqui o faço!

Naturalmente, não podia deixar de repetir as palavras que já dediquei aos não-candidatos que ontem estiveram em jogo.
O perdedor da noite foi:
“O Bloco de Esquerda, e particularmente Francisco Louça, serão os grandes derrotados das presidenciais 2011.
A aposta do BE em Manuel Alegre apenas se deveu a considerações estratégicas.
Depois do resultado obtido nas últimas eleições autárquicas, o BE constatou que está longe de ser um partido com implantação nacional. Tendo-se igualmente apercebido que a facção mais esquerdista do PS estaria descontente com a sua liderança, ao apoiar Manuel Alegre, Francisco Louça estava a tentar absorver parte dessa facção de modo a conseguir dois objectivos:
1º – melhorar a sua representação no território nacional;
2º – consolidar a sua posição onde já estava representado.
Não me parece que Francisco Louça vá ficar contente com os resultados e é muito provável que, devido a sua postura – as acções disciplinares contra os militantes que se recusaram a apoiar Alegre e afins – vá enfrentar contestação interna.
Há, na minha opinião, outro factor a considerar neste apoio do BE a Alegre.
Francisco Louça pode ter tido medo de obter um mau resultado eleitoral, o que, simultaneamente, desgastaria a sua imagem e a do BE.”

Já o triunfador foi José Sócrates.
“ (…) Estrategicamente foi brilhante!
Apoiou Manuel Alegre para manter o PS intacto, ao satisfazer os pedidos dos socialista mais radicais. Para além disso, livra-se de fantasmas e ensina a Francisco Louça como se devem fazer purgas no século XXI.
Sócrates sempre quis Cavaco em Belém, pois este é mais previsível. Mesmo equacionando uma postura mais agressiva de Cavaco Silva no segundo mandato.”

Notas finais:
No discurso que fez ontem, era perceptível o desconforto de Francisco Louçã. Se ele pensa que o PS está fragmentado, está redondamente enganado. Se há coisa que se lê dos resultados de ontem é que, para os socialistas, votar em Alegre não é a mesma coisa que votar em Sócrates.

Não encaro Pedro Passos Coelho ou Paulo Portas como vencedores. Fizeram o que lhes competia.
No entanto, considero relevante o seguinte. No seu discurso, Pedro Passos Coelho, demonstrou que sabe onde está, o que quer e qual é a sua família política. Mas, não me parece que o próprio seja cavaquista.

Veremos como se comporta contra José Sócrates.