Na base do conhecimento está o erro

Biden ou Trump?

(Photo by Jabin Botsford/The Washington Post via Getty Images)

Antes de abordar a questão é necessário dizer algo sobre as particularidades do sistema político e eleitoral norte-americano.

Primeiro, não é possível fazer uma transposição directa entre o que os norte-americanos e o que os europeus, no caso os portugueses, entendem por liberal. Os contextos culturais e históricos são distintos e, mesmo a nível académico, o sentido norte-americano da palavra “liberal” não tem nada que ver com o habitualmente entendido na Europa.

Segundo, se um português disser que votará sempre republicano ou democrata, independentemente do Estado e do candidato (quer seja para um senador, quer seja para um congressista) está, na minha opinião, a dar um sinal de desconhecimento dos condicionalismos inerentes ao sistema político norte-americano. Contudo, a polarização e até a cegueira ideológica não é um fenómeno exclusivo da política norte-americana. Curiosamente, tendo em mente os pressupostos atrás referidos, há uns tempos fiz um pequeno exercício e, na maioria dos casos, votaria republicano. Porém, as eleições presidenciais, até pelas suas características (um poder federal exercício por uma pessoa), são diferentes.

Terceiro, as escolhas não dependem apenas de motivos racionais. Aliás, na maioria das vezes, resultam de decisões emocionais, sendo a preferência e a simpatia – baseada na percepção que cada um tem relativamente às características e crenças dos candidatos – determinante para a escolha. E, não surpreendentemente, muitas decisões são tomadas no momento.

Expressos estes pontos, para responder a esta questão é necessário tentar estabelecer alguns paralelismos nas dimensões política, económica e social, assumindo, para além da democracia e do Estado de Direito, limites ao poder do Estado, economia de mercado e direitos individuais inalienáveis. Entre Biden e Trump existem pontos em comum. Nem um, nem o outro, defendem a abolição do regime democrático ou o fim do Estado de Direito, e ambos, embora em pontos distintos, defendem limitação ao poder do Estado. Assim, as diferenciações principais encontram-se nas restantes vertentes. Por exemplo, os republicanos defendem um Estado menor e menos impostos, mas também defendem a limitação da escolha individual em questões como o aborto. O proteccionismo e a guerra comercial com a China é um factor de diferenciação face a Biden. E os subsídios que Trump dá aos agricultores norte-americanos também é um factor a ter em mente.

Ora, não posso ignorar que no panorama político norte-americano, Trump é uma excepção. Foi eleito sem qualquer experiência política e militar. Não é difícil perceber o porquê? Representava alguém que, apesar do narcisismo e egocentrismo que o caracteriza, vinha de fora do sistema. Podem dizer que passados quatro anos, as características e crenças pessoais do Trump já são conhecidas e, como tal, estão validadas. Não concordo. Principalmente quando a falta de humildade continua a ser evidente. Porém, penso que é indiscutível que o Trump – que considero que nem sequer é um RINO (Republican In Name Only) – foi coerente com a políticas tradicionalmente conotadas com o partido republicano. Contudo, também demonstrou decisões com as quais não podia estar mais em desacordo. Privilegiou o poder executivo em detrimento do poder legislativo, como se aquele fosse suficiente por si só. Questionou as decisões dos tribunais que não lhe foram favoráveis, levantou suspeitas e insinuações sobre tudo o que não lhe agrada e promoveu o nepotismo.

Como liberal, defendo a meritocracia. Assim, reprovo a prática do nepotismo. Considerando que é inaceitável o que os socialistas fazem, posso aceitar que Trump faça o mesmo? Por outras palavras, é aceitável criticar o nepotismo da esquerda e apoiar o nepotismo da direita? Poderão dizer-me que o Trump quer pessoas à sua volta em quem possa confiar. É compreensível. Porém, é precisamente esse o argumento que os socialistas apresentam para justificar as nomeações que fazem. Ainda me recordo do Almeida Santos a utilizar o argumento da confiança.

Poderão dizer-me que os democratas têm a mesma prática. Aceito. Mas a prática que é questionável nos outros é justificável quando é praticada por nós? Para mim, não. Da mesma forma que condeno o nepotismo dos democratas, condeno o nepotismo dos republicanos. E da mesma forma que condeno o nepotismo dos socialistas portugueses, condenarei o nepotismo dos liberais portugueses. Não é possível que o Trump só confie na sua família. Para além disso, tantos membros da família na Casa Branca, ainda por cima em posições chave, alimentam suspeitas de procura de benefícios em negócios privados.

Para mim, o que está em causa é um princípio. E dentro dos limites da minha capacidade de análise e postura individual, não estou disponível para prescindir dos meus princípios. Não há liberdade sem responsabilidade. Não há responsabilidade sem coerência.

Assim, argumentar que um liberal deve votar Trump, ou Biden, é uma falácia. Não há razões objectivas para tal e a escolha está basicamente dependente da preferência individual. Eu, como liberal, não encontro razões para votar em nenhum dos dois. Claro que, no limite, existe sempre a possibilidade do voto por exclusão.

Se tivesse de votar entre o Biden e o Trump, só tomaria a decisão no momento. Virgílio, o poeta latino, tinha razão: “(…) raramente sabemos do que somos capazes até nos depararmos com as situações”.

P.S. – Expressei apenas a minha opinião. Respeito opiniões diferentes. Discutir preferências e gostos é algo interminável. Não existem gostos melhores do que os outros. E foi precisamente o Supremo Tribunal de Justiça norte-americano que melhor se pronunciou sobre esse assunto.

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