Na base do conhecimento está o erro

Todo o sagrado é profanável

Um dos melhores sinais para mensurar o nível de desorientação, de incapacidade e de incompetência para lidar com as circunstâncias é a cedência dos limites. O zénite de tal constatação é o redesenho unilateral da fronteira do sacrossanto. Claro que o sagrado é um conceito flutuante. Afinal, o que é que não é inviolável?

Se, eventualmente, seria tolerável uma variação de fronteiras na democracia representativa, por esta estar no âmbito político e depender, em ultima análise, da vontade individual de participação, uma profanação nos ritos da maior religião global – cuja circunferência é integralmente espiritual – a propriedade privada económica, concretamente, na confiança que rege o vínculo entre o banco e o depositante, irá para além do desejado e poderá colocar em risco o próprio regime, tanto económico como político.

Com este “(…) acordo sobre as regras de liquidação de bancos em dificuldades (…)”, a quebra da confiança é uma realidade.
Tendo sido anteriormente afirmado que a mesma seria apenas circunscrita ao Chipre, quem é que acredita que os depósitos com montantes inferiores a 100 mil euros são efectivamente sagrados?

Todo o sagrado é profanável!

Actualmente, esta é a regra. Infelizmente!

10 responses

  1. José António Rodrigues Carmo

    Quando esta questão se colocou pela primeira vez, também me pareceu uma coisa disparatada.
    Mas não gosto de emprenhar pelo ouvido e fui analisar com algum cuidado a racionalidade da medida.

    O que apurei resume-se no seguinte:

    Os depósitos bancários abaixo dos 100 000 euros que o cidadão X tem no Banco B, estão garantidos se o banco fôr à falência. Quem garante? O Estado, ou seja, os contribuintes.
    Em resumo, o cidadão tem a certeza que o resto da malta, queira ou não queira, irá largar uns cobres para que ele mantenha o seu pé-de-meia.

    Os depósitos bancários acima dos 100 000 euros, não estão garantidos.
    Porquê?
    Porque os contribuintes não são chamados a pagar.
    O que se passa, neste caso, é puro risco.
    Se eu tiver, digamos, 500 000 euros no banco B, e ele estiver em vias de falir, as minhas opções são:
    1- O banco vai à falência e fico sem o meu dinheiro, como acontece em qualquer negócio que vá à falência. Perco 400 000 euros!
    2-O banco usa uma parte do meu dinheiro para se salvar da falência. Perco, digamos, 50 000 euros.

    Que prefiro?
    Perder 400 000, ou perder 50 000?

    Prefiro não perder nenhum?
    Pois claro, mas nesse caso, serão os contribuintes a largar o guito. Como aconteceu no BPN.
    É justo?
    É que se for o caso, não vejo porque razão há-de alguém investir o seu dinheiro num qualquer negócio com risco, quando tem aqui um investimento sem qualquer risco…

    Em resumo, a medida parece-me lógica e racional e quem achar o contrário, importa-se de explicar?

    2013-06-29 às 8:50

    • VFS

      Meu amigo,
      o que está por detrás disto é, principalmente, uma triagem de bancos.
      Evidentemente, os depositantes são transferir os seus depósitos para os bancos mais sólidos. Talvez os alemães?

      Mas gostaria apenas de salientar o seguinte.
      Se tu tiveres 500 000 euros no banco B, se este estiver em risco de falência e mesmo após utilizar uma parte do teu dinheiro for à falência, perderás 500 000 euros.
      Ou não?

      2013-06-29 às 9:37

  2. José António Rodrigues Carmo

    Penso que não tem a ver com isso…os bancos são todos sólidos até deixarem de ser, sejam alemães ou chineses. Respondendo à tua questão, sim, se for à falência perdes tudo, mas isso é o que acontece em qq negócio em que invistas o teu dinheiro. Neste, pelo menos, tens garantidos 100 000 euros. O resto é o teu risco, depende das tuas escolhas. Preferes perder 400 000 PELA CERTA, ou preferes perder algum, retendo algumas chances de não o perder todo?

    O que deves fazer? Simples….como diz o povo, distribuir os ovos por vários cestos. Não há cestos blindados e 100% seguros, deste lado de cá do Sol.
    A não ser, claro, que os contribuintes paguem o teu risco…

    2013-06-29 às 11:06

    • VFS

      Meu amigo,

      eu aceito os teus argumentos e já havia reflectido sobre os mesmos quando decidi escrever este post.
      Independentemente das sensatez das opções, mudar as regras assim, mesmo considerando as razões – resta saber se as partes aplicarão as normas conforme foram expressas – estamos perante uma marca psicológica que dificilmente será reposta.

      A confiança é mensurável ou resulta de algo imaterial como esperança ou fé?

      Pessoalmente, não acredito que os depositantes com quantias inferiores ao limite divulgado estejam a salvo.

      2013-06-29 às 19:13

  3. José António Rodrigues Carmo

    A confiança é sempre uma questão de fé…e psicologia. O que faz mover estas questões ( e quem já investiu em bolsa sabe mto bem que é assim), são dois sentimentos muito básicos: ganância e medo! Pessoalmente tb não acho possível que os Fundos de Garantia tenham alguma vez capital para pagar 100 000 euros a toda a gente. Mas essa situação dificilmente se colocará….os bancos não vão todos à falência ao mesmo tempo. No fundo, trata-se de evitar as consequências de um estouro da manada, em caso de rumor. Sabendo ( acreditando) que 100 000 estão garantidos, a malta não entra em pânico, provocando uma falência que se quer evitar.

    2013-06-29 às 20:05

    • VFS

      Meu amigo,

      tenho sérias dúvidas que a maioria das pessoas vá reagir racionalmente.
      Oxalá esteja enganado.
      Afinal, trata-se duma quebra de confiança. Essa é a primeira percepção.

      Quantas ideias sustentadas em excelentes intenções acabaram por ter consequências nefastas?

      2013-06-29 às 23:58

  4. José António Rodrigues Carmo

    Em caso de pânico, as pessoas agem em pânico. A “garantia” dos depósitos, não sendo verdadeira, se a manada estourar, é psicologicamente verdadeira, o que, de alguma forma, ajuda a evitar o pânico. Um exemplo. Se estás num espaço fechado e alguém grita “fogo”, toda a gente corre para a saída e quantas mais pessoas correm, maior a febre de sair dali. Isto normalmente acaba mal, com gente atropelada, asfixiada, esmagada, morre uma data de gente.Mas se a maioria das pessoas acreditar ( mas acreditar mesmo) que aqueles grifos no tecto, são mesmo capazes de despejar centenas de litros de água, tendem a não entrar em pânico tão facilmente. POde ser que despejem água ou não, na verdade nem sequer houve fogo, mas acreditar nisso evitou o estouro.

    2013-06-30 às 8:33

  5. Pingback: Todo o sagrado é profanável | Triplo Blog II

  6. João Gabriel Marques

    Como a previdência social é uma instituição no seu ocaso, parece que os depósitos bancários também o são. Voltamos, portanto, ao pé de meia dentro do colchão.
    João gabriel

    2013-07-01 às 20:33

  7. joão Guilherme Barbedo Marques

    É evidente que o Passos Coelho está totalmente perdido. Sempre esteve. Ele não sabe o fundamento das coisas e, portanto, para ele não há sagrado nem profano: tudo é igual.
    Mas nós naõ somos todos Passos Coelho. Se eu corro um risco em depositar dinheiro no banco, se o banco me dá um juro pelo depósito do meu dinheiro que é extremamente diminuto, para que corro o risco? Guardo eu próprio o meu dinheiro e a aflição do governo e bancos quando estiverem sem fundos vais ser imensa. Talvez nessa altura o Passos Coelho aprenda o sempre devia ter sabido para ser primeiro ministro
    [

    2013-07-01 às 21:07

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