Na base do conhecimento está o erro

Realidades alternativas ou cenários reais?

Os recursos naturais não são inesgotáveis. O ar, a água, os combustíveis fósseis, etc., são recursos naturais que, por acção directa e indirecta do homem e por necessidade de alimentação dos mecanismos de sustentação dos vários modelos de agregação social que civilização humana originou, tem um período de duração. Naturalmente, uns mais do que os outros. Isto não é novidade.

O que é novidade é o que nos diz o estudo “Metal Stocks and Sustainability” da autoria de Robert Gordon e Thomas Graedel da Universidade de Yale e Marlen Bertram da Organização Europeia dos Refinadores de Alumínio. Segundo este estudo, as reservas de cobre, zinco e de outros metais poderão não ser capazes de provir eternamente as necessidades da população global, mesmo tendo em conta intensos programas de reciclagem.

Actualmente, existe um “equilíbrio” que resulta da grande procura dos países desenvolvidos pelos recursos minerais face à fraca procura dos países do terceiro mundo. Mas adivinham-se tensões e disputas entre os países desenvolvidos para responderem às suas necessidades de recursos naturais e minerais, uma vez que a procura não dá mostras de abrandar. Antes pelo contrário, a tendência é de aumento.

Tendo em conta a escassez dos recursos energéticos e minerais, a fraca implementação, por parte dos países desenvolvidos, das orientações e práticas contidas na ideia do desenvolvimento sustentável e não esquecendo as consequências que o aumento do preço destes recursos têm nos orçamentos dos Estados e no nível de vida dos cidadãos, é conveniente ponderar os seguintes cenários:

1. Consciente que o ouro negro não é um recurso eterno e contrariamente às políticas estratégicas que outros países árabes, igualmente produtores de petróleo, implementaram, o Irão optou pelo desenvolvimento de um programa nuclear, alegando, entre outros argumentos, as insuficiências das suas infra-estruturas para o fornecimento de energia à sua população.

Considerando os recentes desenvolvimentos nas relações da comunidade internacional, as directrizes de política externa que a administração norte-americana pôs em pratica na sequência dos atentados de 11 de Setembro, acordos previamente estabelecidos e as realidades inerentes à teocracia iraniana é muito natural a preocupação que a comunidade internacional – encabeçados pelos Estados Unidos e pela União Europeia – manifestou pela possibilidade de o Irão usar esse programa não apenas para fins civis mas também para a criação de um arsenal nuclear.

Aquilo que me leva a referir este cenário é a possibilidade de as reservas de petróleo iraniano não serem tão grandes como se diz serem. Daqui podem-se tirar duas ilações: Se as reservas de petróleo que o Irão diz ter são reais e estão correctas, não devem restar dúvidas que o Irão tenciona dar um uso militar, para além de um uso civil, ao seu programa nuclear. Se, por outro lado, as reservas de petróleo iraniano não correspondem à realidade, então a principal utilização do seu programa nuclear visa o uso civil, não descartando o uso militar. Apesar de ambas as deduções não serem nada tranquilizadoras e de irem estimular o aumento do preço do crude, esta última possibilidade, caso seja confirmada, terá um efeito desproporcional no mercado mundial cuja primeira consequência será um desmesurado aumento no preço do barril de petróleo.

2. Nas duas últimas décadas, o desenvolvimento industrial à escala mundial tem sido continuamente crescente tendo-se vindo a notar o incremento da importância de dois países na economia mundial.
A Índia e a China são dois dos países com maior taxa de crescimento mundial e são os mercados mais atractivos do mundo. De entre os dois, destaca-se o caso da China pelo seu potencial em vários sectores de actividade económica e com taxas de crescimento sustentáveis bem acima da média global. Aliás, o mercado chinês é já o mercado que atrai mais investimento directo estrangeiro.
Para suportar as taxas de crescimento originadas pelo boom da sua economia interna, a China passou, em vinte anos, de maior exportador de petróleo da Ásia a segundo maior consumidor e terceiro maior importador mundial. Por sua vez, no que se refere à procura por recursos minerais, o consumo chinês aumentou, no período de quinze anos, de 7% para cerca de 20%, e este valor pode duplicar no fim desta década.
Esta necessidade de recursos levou o Governo chinês a estabelecer uma rede de posições estratégicas, principalmente através de acordos bilaterais, nos locais e trajectos das fontes mundiais destes recursos procurando apenas assegurar o seu fornecimento e consequentemente o continuar do seu crescimento económico. Este é o objectivo da diplomacia económica chinesa que, segundo Wang Jisi, reitor da Escola de Estudos Internacionais de Beijing, não pretende desafiar a ordem mundial, mas apenas aproveitar a conjuntura favorável que a imagem actual dos Estados Unidos permite.

Paralelamente a estes panoramas, a China tem vindo a desenvolver um programa espacial que recentemente lhe possibilitou ser o terceiro país do mundo a colocar um homem em órbita. Com o sucesso alcançado, os responsáveis chineses anunciaram uma missão tripulada à lua e a construção de uma estação espacial.
Ora, todos estes pormenores dão uma nova perspectiva ao programa espacial chinês pois, o exaurir das reservas dos recursos naturais e minerais terrestres vai acelerar a exploração do espaço. Talvez estejam alicerçados nas ideias de John S. Lewis (Mining the Sky: Untold Riches from the Asteroids, Comets and Planets). Quem é que nos diz que a China não pretende ser o primeiro país a explorar as fontes de minérios extra-planetárias?

Com as vantagens adquiridas nesta iniciativa, a China, para além de usufruir directamente dessas novas fontes de recursos minerais, pode vender, a terceiros países, o know-how e os produtos, obtendo lucros adicionais. Mas a principal relevância que advirá, ao ser o primeiro a utilizar este tipo de recursos e de novas tecnologias, é a posição dominante que terá na estratégia de desenvolvimento espacial.

Publicado: 26 de Abril de 2007 – O Primeiro de Janeiro

One response

  1. Maria Ana Charters de Oliveira Dias

    Temática muito interessante, de grande actualidade. Abordagem bem estruturada que, apoiando-se em fundamentos reais, a torna verosímil. Texto de qualidade.

    2010-11-26 às 23:48

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