Na base do conhecimento está o erro

(In) Tolerâncias

As reacções, na minha opinião inusitadas, ao comentário proferido pelo Presidente da República no passado dia 10 de Junho merecem alguma reflexão.

“Dia da raça”. Qual é o problema desta expressão? Num País e num mundo cosmopolita porque é que a mesma não pode ser utilizada? Porque é que determinadas pessoas não conseguem ultrapassar certos fantasmas e andar com a vida para a sempre? O tempo do Estado Novo já lá vai. Vivemos em democracia. É verdade que é jovem e recente, mas é uma democracia.

O que também começa a parecer inquestionável é que este tipo de atitudes só demonstra o nível de tolerância de alguns indivíduos. Ou será melhor dizer intolerância?

A vitória de António de Oliveira Salazar como o «maior português de todos os tempos» foi uma coisa muito mal digerida por algumas pessoas. Não me recordo da quantidade de portugueses que participaram na votação, nem esse pormenor é aqui importante, pois o que interessa salientar é que as reacções observadas depois de conhecidos os resultados foram verdadeiramente deploráveis.

Agora, com outra expressão que eventualmente permite uma acepção relacionada com um específico período histórico da vida de Portugal, nomeadamente aquele que foi dirigido pelo português atrás referido, ouvem-se de novo vozes a pedir explicações.

Por acaso, V. Exas., não tem outros assuntos mais importantes com que se preocupar?

Curiosamente, sempre que assisto a comportamentos deste género, fico com a seguinte dúvida: Será que estas vozes, que se manifestam ruidosamente, gostam de Portugal? Vamos considerar que sim. E se eu reformular a pergunta e utilizar estes termos: V. Exas., amam a Pátria portuguesa? V. Exas., dirão que não? Então, porque é que reagem sempre desta maneira quando alguns tipos de formulação são empregues?

Se nós vivemos em democracia e a liberdade de expressão é, para além de um valor, um direito consagrado na nossa Constituição, porque raio é que é necessário utilizar determinadas palavras em vez de outras, quando ambos os vocábulos significam a mesmíssima coisa?

Acredito que algumas circunstâncias sejam traumatizantes. Não julgo experiências passadas nem vivências experimentadas. Mas, em vez de se preocuparem com ninharias, se procurassem analisar o porquê da escolha de Salazar como o maior português, talvez as conclusões de semelhante análise fossem mais proveitosas. E se V. Exas., perceberem a razão porque os eleitores deixam de se rever nos seus representantes, quiçá, numa futura auscultação similar, o resultado venha a ser diferente.

Por isso, repito, V. Exas., representantes de partidos políticos e afins, eventualmente titulares de cargos públicos, que se manifestam contra determinadas expressões, não tem outros assuntos mais importantes com que se preocupar?

Não vive o País tempos muito difíceis que requerem toda a vossa ponderação? Porque razão vão agora criar mais uma situação de distracção, sendo que essa condição vai desviar a atenção dos problemas que devem ser solucionados.

E recordem-se que democracia e liberdade implicam aceitar e respeitar visões e opiniões diferentes da nossa. Sejam tolerantes para os outros serem tolerantes convosco.

Publicado: 13 de Junho de 2008 – O Primeiro de Janeiro

2 responses

  1. “E recordem-se que democracia e liberdade implicam aceitar e respeitar visões e opiniões diferentes da nossa. Sejam tolerantes para os outros serem tolerantes convosco.” Isso está muito certo, mas as palavras são organismos dinâmicos que se associam a determinados discursos, idéias ou significados ou até a regimes e pessoas, conforme o poder que lhes foi atribuido. Por isso também podem existir várias palavras para um mesmo significado, mas provávelmente cada uma tem diferentes conotações.
    Penso que o termo “raça” , por exemplo, comporta em si uma série de associações para lá do simples significado de dicionário, por mais que queiramos minimizá-lo. Neste sentido não será tanto uma questão de tolerância mas antes de sensibilidade, uma coisa que as pessoas decerto esqueceram quando votaram em Salazar como o “maior português”, digo eu, claro. Não posso compreender como alguém pode ser “o maior” por manter um país ignorante, coprovadamente alheado das transformações artístico-culturais do resto da europa. Mas quando a grandeza de um país é única e sistemáticamente associada ao futebol, está tudo dito!…

    2008-06-14 às 23:01

  2. VFS

    Inteiramente de acordo.
    Apenas referi o exemplo do “maior português” como ilustração. Se foi a escolha vencedora devemos aceitá-la. Julgo que a reacção da personalidade que “defendia” Álvaro Cunhal mostrou tudo menos tolerância com o resultado da votação.
    Salazar, como todos os homens, teve defeitos e virtudes, mas, paradoxalmente, a aposta na não-educação era coerente. Pessoas esclarecidas manifestam-se, logo são menos controláveis. Por isso …
    E se analisarmos os “progressos” da educação no Portugal democrático, a grande diferença é a massificação de alunos. Pouco mais haverá a realçar. Continua a ser essencialmente corporativo. Naturalmente que há excepções.
    Quando às políticas governativas, na minha opinião, as mesmas são as responsáveis pela decadência e má-qualidade do ensino.
    Por fim, coloco no mesmo patamar as reacções ao uso de um termo e o fenómemo do futebol. Para os nossos responsáveis políticos, ambas servem para desviar a atenção do primordial. São “acessórios” necessários. É pena.

    2008-06-15 às 0:03

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s