Na base do conhecimento está o erro

Archive for 2008-06-12

(In) Tolerâncias

As reacções, na minha opinião inusitadas, ao comentário proferido pelo Presidente da República no passado dia 10 de Junho merecem alguma reflexão.

“Dia da raça”. Qual é o problema desta expressão? Num País e num mundo cosmopolita porque é que a mesma não pode ser utilizada? Porque é que determinadas pessoas não conseguem ultrapassar certos fantasmas e andar com a vida para a sempre? O tempo do Estado Novo já lá vai. Vivemos em democracia. É verdade que é jovem e recente, mas é uma democracia.

O que também começa a parecer inquestionável é que este tipo de atitudes só demonstra o nível de tolerância de alguns indivíduos. Ou será melhor dizer intolerância?

A vitória de António de Oliveira Salazar como o «maior português de todos os tempos» foi uma coisa muito mal digerida por algumas pessoas. Não me recordo da quantidade de portugueses que participaram na votação, nem esse pormenor é aqui importante, pois o que interessa salientar é que as reacções observadas depois de conhecidos os resultados foram verdadeiramente deploráveis.

Agora, com outra expressão que eventualmente permite uma acepção relacionada com um específico período histórico da vida de Portugal, nomeadamente aquele que foi dirigido pelo português atrás referido, ouvem-se de novo vozes a pedir explicações.

Por acaso, V. Exas., não tem outros assuntos mais importantes com que se preocupar?

Curiosamente, sempre que assisto a comportamentos deste género, fico com a seguinte dúvida: Será que estas vozes, que se manifestam ruidosamente, gostam de Portugal? Vamos considerar que sim. E se eu reformular a pergunta e utilizar estes termos: V. Exas., amam a Pátria portuguesa? V. Exas., dirão que não? Então, porque é que reagem sempre desta maneira quando alguns tipos de formulação são empregues?

Se nós vivemos em democracia e a liberdade de expressão é, para além de um valor, um direito consagrado na nossa Constituição, porque raio é que é necessário utilizar determinadas palavras em vez de outras, quando ambos os vocábulos significam a mesmíssima coisa?

Acredito que algumas circunstâncias sejam traumatizantes. Não julgo experiências passadas nem vivências experimentadas. Mas, em vez de se preocuparem com ninharias, se procurassem analisar o porquê da escolha de Salazar como o maior português, talvez as conclusões de semelhante análise fossem mais proveitosas. E se V. Exas., perceberem a razão porque os eleitores deixam de se rever nos seus representantes, quiçá, numa futura auscultação similar, o resultado venha a ser diferente.

Por isso, repito, V. Exas., representantes de partidos políticos e afins, eventualmente titulares de cargos públicos, que se manifestam contra determinadas expressões, não tem outros assuntos mais importantes com que se preocupar?

Não vive o País tempos muito difíceis que requerem toda a vossa ponderação? Porque razão vão agora criar mais uma situação de distracção, sendo que essa condição vai desviar a atenção dos problemas que devem ser solucionados.

E recordem-se que democracia e liberdade implicam aceitar e respeitar visões e opiniões diferentes da nossa. Sejam tolerantes para os outros serem tolerantes convosco.

Publicado: 13 de Junho de 2008 – O Primeiro de Janeiro