Na base do conhecimento está o erro

Mercado, mentalidade e desperdício

Mercado! Mentalidade! Desperdício! Que relação está subjacente a estes conceitos?

Desde meados dos anos 50 do século passado que o crescimento do comércio internacional tem vindo a ultrapassar o crescimento da produção. Por outras palavras, e apesar de alguns períodos de estagnação, o aumento do comércio internacional tem sido uma constante. E, uma das alavancas responsáveis por esta subida, é o comércio de produtos industriais.

Não querendo introduzir demasiados pormenores, relembro que o comércio internacional é indicador de internacionalização e interdependência económica, sendo, por tal, associado ao fenómeno da globalização. Naturalmente, em termos empresariais, e não só, a mentalidade incide sobre o mercado global onde o crescimento pode – e deve – ser baseado em cálculos geométricos em vez de aritméticos.

Sustentada em alicerces financeiros e, primordialmente, visando o incremento da riqueza, o todo da sociedade gira em torno do binómio produção-consumo. Assim, concretamente, no que respeita às relações entre países e aos seus agentes económicos, não é difícil perceber que “o Estado que se mantenha à margem das conexões comerciais e das interligações relacionais aumentará o fosso que o separa dos demais”. Por outras palavras, perderá riqueza. Como tal, não tem alternativa senão a participação activa na conjuntura global.

Todo este acréscimo de produção obrigou a maiores consumos energéticos e facilitou a descida dos preços dos bens de consumo, tornando a sua compra mais acessível. Isto, devido a uma mentalidade de consumismo que se foi desenvolvendo.

Infelizmente, reflectindo a falta de preocupação ambiental que o pensamento de então possuía, também originou mais poluição e desperdícios. Para ilustrar esta afirmação, analisemos este exemplo: as impressoras. Hoje em dia, é quase mais barato adquirir uma impressora nova do que comprar os tinteiros para a impressão. Se é verdade que estamos a levar ao extremo o figurino apontado e que o mesmo pode não ser motivo suficiente para a sua substituição, já quando se verifica a necessidade de recorrer à assistência técnica, para reparar ou resolver uma avaria, aí não restam dúvidas. Confrontados com o tempo que vamos perder para levar a impressora ao técnico e que só para verem o problema que a mesma tem já nos vão cobrar algo, facilmente chegamos à conclusão que estes custos aliados ao valor da reparação em si fazem com que efectivamente seja mais barato comprar uma nova. Normalmente, o que é que fazemos à “velha”? Deitamo-la fora. Então, que provocamos quando participamos e/ou executamos este facilitismo? Pura e simplesmente, mais desperdícios.

Não há dúvida que o conceito do desenvolvimento sustentável é recente e que já nos permitiu algumas alterações de mentalidade. Mas, será que é uma noção verdadeiramente interiorizada pelas populações do mundo? Quantos, dos materiais que fazem parte duma impressora, são de fácil reciclagem? E o que é que acontece aos que não é possível reciclar?

“O barato sai caro”. Eis um cliché sobejamente conhecido! No entanto, exigimos qualidade a baixo preço. Será que isso é possível? Países como a China têm aumentado muito a sua capacidade produtiva e conseguem produzir a baixo custo. Estão a registar um crescimento económico sem igual e a dominar o mercado global. Mas a que preço? Supondo que, visando uma redução de custos, uma empresa europeia procura estabelecer uma relação comercial com um eventual fornecedor chinês, que percentagem dos bens por ele produzidos respeitará certificações de qualidade? Nenhum empresário chinês recusa negócios. Mesmo sabendo antecipadamente que o valor combinado não permitirá qualidade. Que riscos estamos dispostos a correr devido à compra de produtos baratos? Ou não existe a possibilidade de alguns destes produtos colocarem em risco a nossa segurança?

Talvez seja a altura de mudar a mentalidade, ou, pelo menos, de a actualizar. Parece-me ser preferível pagar mais por um produto amigo do ambiente com uma maior durabilidade do que estar constantemente a substituir esse bem de consumo e a criar mais desperdício. No entanto, não vejo nenhum rastilho nesse sentido.

Mercado! Mentalidade! Desperdício! Qual destes conceitos faculta mais futuro?

24 de Janeiro de 2008 – O Primeiro de Janeiro

2 responses

  1. Fernando Duarte

    Excelente artigo!

    2010-03-01 às 14:55

  2. João Guilherme Barbedo Marques

    Caro Vicente
    Como sempre, li com interesse o teu artigo de opinião.
    Tenho a impressão de que aquilo de que se fala a ponto de não se falar de outra coisa -crescimento sustentado- não é nada mais nada menos de que um eufemismo que quer dizer: o crescimento não é nada daquilo que queríamos e desejavamos, mas tem a grande vantagem de poder ser mantido! Quem o diz, torce-se todo para que deixe de ser sustentado e se torne explosivo!
    Muito daquilo que conta como riqueza que se cria, como rendimento, não é nada disso.
    Tu exemplificas com as impressoras e muito bem. Já há mais de 40 anos, o ministro da Agricultura da Holanda teve um exemplo magnífico. Todos os dias um camião carrega uma carga para que vai de Roterdão a Haia. Chegada a Haia, a carga é descarregada e, depois de conferida, volta a ser carregada no camião para seguir para Roterdão onde é descarregada, conferida e volta a ser carregada para ser transportada para Haia. E isto ao longo de todo o ano. Que serviço imenso! Que grande contribuição para o PIB! Agora, em que é que contribui para o rendimento da nação?
    No aspecto das impressoras, ainda se pode dizer: uma durável custa mil e dura um ano; estas dura um mês, mas só custam cem. Então há que deitar fora e talvez o cata-lixos ganhem qualquer coisa. E, por isso, talvez a China tenha razão: ela produz porcaria, mas toda a gente a quer e a China progride. Se ela produzisse qualidade, progrederia? É claro que grande parte do êxito da China está na 5ª coluna, essa quantidade enorme de chineses que em todos os países vão tomando conta do comércio. E se o comércio é só deles, que admira que sejam os produtos chineses, bons ou maus, a serem vendidos?

    2010-03-01 às 14:57

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