Na base do conhecimento está o erro

Mercado, mentalidade e desperdício (II)

Começo por dizer que já tinha esta segunda e última parte do artigo concluída. Como tal, agradecendo as reacções que obtive dos meus leitores, espero que estas linhas sirvam como resposta às dúvidas e pontos de vista colocados.

Fazendo a ponte para a primeira parte desta reflexão e observando as circunstâncias do mercado global, será que a opção chinesa pela quantidade em vez de qualidade está errada? É indiscutível que os agentes económicos procuram estabelecer relações comerciais com a China a vários níveis, chegando ao ponto de deslocar unidades fabris para lá, procurando usufruir dos baixos custos de produção que nesse país, ou região, se verificam. Inevitavelmente, a produção aumentará. Consequentemente, estamos a falar de quantidade.

Ora, este ponto remete-nos para uma das questões previamente postas. Será que é possível qualidade a baixo preço? É partindo desta pergunta que devemos raciocinar sobre a realidade chinesa. É incontroverso afirmar que o nível de desperdícios apurados em cada produção chinesa atinge elevadas percentagens. Infelizmente, o preço acordado já antecipa essa possibilidade (e o risco de cópias de ainda menor qualidade) e, por isso, a China produz quantidade em vez de qualidade.

No entanto, quantos consumidores não adquirem estes produtos de baixa qualidade? Então, provavelmente, a China tem razão, pois quase toda a gente quer produtos chineses. E é precisamente através por este tipo de «modus operandi», que a China tem progredido. Naturalmente, haverá mais motivos para tal (tanto estruturais como conjunturais), mas não restam dúvidas que a actuação das comunidades chinesas, verdadeira 5ª coluna disseminada por todo o mundo, tem contribuído para isso. Ao tomarem conta do comércio – note-se que a sua actividade comercial versa essencialmente sobre bens de primeira necessidade – é de espantar que sejam chineses os produtos mais comercializados? Sejam eles melhores ou piores?

Assim, a China prospera porque produz quantidade. Então, que aconteceria se a China optasse por uma política de qualidade? Será que o mesmo ritmo de crescimento económico seria atingível? Deixo propositadamente estas questões em aberto. Apenas relembro que facilmente são aferidas substanciais diferenças entre os bens de consumo fabricados na China, e, por exemplo, na Coreia do Sul, em Singapura, em Taiwan, no Japão, etc. Particularmente no que se refere à qualidade. E, claro, ao preço. Mas a qualidade e a durabilidade paga-se.

É aconselhável não esquecer que outro dos objectivos visados, nas supra mencionadas relações comerciais estabelecidas entre multinacionais e os agentes económicos chineses, são quotas de venda no apetecível mercado de consumo chinês. Afinal, potencialmente alberga mais de mil milhões de consumidores. Mas qual é a verdadeira dimensão desse mercado? Será que todos os cidadãos chineses têm possibilidade para adquirir tais bens de consumo?

Para adquirirmos uma breve noção da realidade económica da China é importante saber que o desenvolvimento socioeconómico não está equitativamente distribuído pelas diversas províncias, que os preços dos alimentos são fixados pelo governo chinês sendo transaccionados abaixo do valor do mercado e que, apesar dos baixos salários que recebem, os cidadãos chineses conseguem atingir rácios de poupança na ordem dos 40%, i.e., dois quintos do que auferem é depositado no banco.

Recentemente, devido à escassez de bens alimentares e por causa do acesso aos transportes, foi necessária a presença do exército chinês para restabelecer a ordem. Estaremos perante sinais de ruptura do sistema? Serão estes exemplos suficientes para a mudança?

Infelizmente não me parece. Então, será que devemos questionar os conceitos que temos de riqueza e rendimento? Serão ainda adequados aos pressupostos do mercado. Será o conceito do desenvolvimento sustentável aplicável à mentalidade actual? Foi para isto que o concebemos? Afinal, o desperdício e a poluição continuam a ser uma constante.

Mercado! Mentalidade! Desperdício! Qual destes conceitos deverá estar na base do modelo de desenvolvimento a seguir?

7 de Fevereiro de 2008 – O Primeiro de Janeiro

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