Na base do conhecimento está o erro

Sinais das Épocas?

Não há nada como uma mudança de ambiente para se discorrer sobre as metamorfoses da vida em sociedade. E se essa alteração ambiental implicar uma viagem a um país diferente do nosso, certamente que então, devido ao choque cultural, as meditações serão ainda mais profundas.
Passar uns dias num país de matriz muçulmana, territorialmente constituído por ilhas onde a privacidade é extensivamente limitada todavia integralmente respeitada, teve em mim esse condão.

Ao chegar ao meu destino, um “resort” turístico, fui informado sobre as circunstâncias inerentes ao local e a latitude dos comportamentos a ter. Nada de especial, apenas um mero reparo quanto a indumentária feminina a utilizar, isto no caso de uma deslocação à capital do país, e um acanhado lembrete: “Por favor, respeitem a nossa cultura”.
Mas não são estes diminutos pormenores que me levam a dissertar nestas linhas. A sensação de segurança e tranquilidade experimentadas é que estão no cerne desta reflexão. Sair da “villa”, para ir para a praia ou para usufruir de qualquer outra instalação de lazer no “resort”, e deixar a varanda aberta não era motivo para preocupação. Pura e simplesmente não passa pela cabeça dos locais mexer na mais ínfima coisa que não seja sua pertença.
E muito naturalmente, esta ambiência é contagiante. Pessoas de variadas origens cruzavam-se todos os dias. Pelo que pude perceber, australianos, japoneses, sul-coreanos e europeus, nomeadamente, alemães, austríacos, espanhóis, franceses, ingleses, italianos e portugueses que, impregnados pela cortesia dos habitantes locais, se cumprimentavam diariamente e conviviam às refeições. Ora, esta situação levou-me a fazer comparações com o que diariamente experimento no meu país e na minha cidade.

Será que, na cidade do Porto, ainda é possível deixar a porta de casa destrancada durante a noite? Parece-me que não. Mas dantes era-o. Recordo perfeitamente que, durante os anos da minha infância e adolescência, os meus pais apenas fechavam a porta, trancando-a somente enquanto nos ausentávamos no período de férias.
Que transformações estão na génese desta condição? Que mutações culturais ocorreram para que a vida em sociedade se tenha tornado tão pouco segura?

A Revolução de Abril presenteou-nos com a dádiva da liberdade, mas a substituição de valores por ela promovida ainda está por realizar. Então, quais são os valores que a liberdade promove? Não são eles convergentes com a segurança?
As respostas não precisam de ser complexas. E muito provavelmente esta suposição estará errada mas, muito simplesmente, talvez democracia e autoridade não sejam concordantes, pois se analisarmos o que se verificava antes e o que se passou a verificar depois, vemos que, anteriormente, tínhamos autoridade em detrimento da democracia e que agora, o inverso é experimentado.

Se todos concordamos – e eu aqui o afirmo – que a liberdade é imprescindível para o desenvolvimento pessoal e para o contributo individual no todo da sociedade, porque é que não somos capazes de nos respeitarmos a nós próprios, à nossa propriedade privada, e consequentemente, aos outros e à sua propriedade?
Pelo país pululam, e não apenas na cidade do Porto, exemplos de episódios de justiça – se é que tal assim pode ser qualificado – feita pelas próprias mãos, de tiroteios à porta de discotecas e de gangs de adolescentes que resolvem os problemas pela força.

Nesta época de democracia, porque é que o respeito não é um valor a promover e divulgar?
E mais preocupante ainda, até onde vai chegar esta circunstância?

Publicado: 27 de Setembro de 2007 – O Primeiro de Janeiro

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