Na base do conhecimento está o erro

Paradoxos

1. Reflexos das conjunturas vividas ou resultado de antagónicos ou diferentes pontos de vista, as ideias que defendemos muitas vezes são reféns das posições que essa mesma razão implica.

Praticamente ninguém aceita ou gosta de ser confrontado com as incoerências próprias. Poder-se-á dizer que tal é humano. Tão comummente humano que é quase compreensível.

O trabalho executado pela presidência portuguesa na União Europeia teve resultados e não foram quaisquer proveitos. As negociações realizadas, que conduziram à assinatura do Tratado de Lisboa, não foram simples e o bom termo das mesmas só nos enchem de orgulho. Pelo menos a alguns de nós. Afinal, como diz o adágio popular, não se pode agradar a gregos e troianos.

Claro que os bons resultados cedo deixam de ser notícia. O que agora anda na boca do mundo é a problemática quanto à realização de um referendo, através do qual a população se pode manifestar. Por um lado, e até um certo ponto, é admissível que aqueles que defendem posições diferentes do Governo utilizem os mesmos meios para se fazerem ouvir. Não é o marketing para todos? Por outro, é inquestionável que a ratificação parlamentar, que os titulares de cargos públicos manifestamente preferem, reacende a questão da distância entre eleitores e eleitos e até que limite estes verdadeiramente representam aqueles.

2. Devido à interligação global, como deverá ser o mundo dividido? Em zonas geopolíticas ou em zonas geoeconomicas?

A organização política do mundo actual, particularmente a da civilização ocidental, é determinada pelo Estado nascido da Revolução Industrial. Ora, o Estado, tal como o conhecemos, há muito que está em crise e declínio. Já não consegue provir os fins para que foi criado, devido a duas situações que caracterizam as democracias ocidentais: primeiro, assim que um candidato é eleito, o seu próprio bem-estar passa a ser a sua primeira prioridade. Em segundo lugar, os grupos de pressão ou lobbies, pela sua acção na defesa dos seus interesses, provocam desvios na condução das políticas sociais governamentais fazendo que com estas percam a perspectiva do bem-estar de toda a sociedade. Consequentemente, o poder do Estado foi depauperado com o aparecimento de agentes sociais que, por um lado, ao assumirem responsabilidades que pertencem aquele, o ajudam, pelo outro, ao roubar-lhe autoridade, o enfraquecem.

Por causa da revolução tecnológica que vivemos, que está a ter o duplo efeito de provocar o colapso das indústrias e do modo de vida, ao mesmo tempo que os substitui por outros completamente novos, o mundo está a mudar e a actual estrutura do Estado apenas subsiste devido à resistência do poder político. Considerando os elementos, social, económico e político do Estado, é precisamente este última que mais resiste e ignora esta mudança, continuando a agir como se o mundo fosse o mesmo. A resistência à mudança é um instinto humano, mas pior do que resistir à mudança é não aceitá-la e, consequentemente, não se preparar para ela, porque a mudança é inevitável. Por isso, o poder político não poderá continuar a ter este tipo postura sob risco de não se adaptar à evolução tecnológica e civilizacional, o que terá efeitos negativos no todo da sociedade.

3. A amplitude de mudança que se nota no dia-a-dia vê-se em situações tão simples como esta. Antes dos avanços tecnológicos que nos proporcionaram, entre outros, os telemóveis, quando se ligava para alguém a primeira pergunta que colocávamos era: Quem fala? Hoje, a pergunta é: Onde estás?

Mas esta mobilidade não deixa de ser aparente, uma vez que a tecnologia também nos deu a virtualidade. Viajar sem nos movermos é outras das possibilidades modernas. Infelizmente, no que respeita às relações sociais, a virtualidade, que para alguns é um verdadeiro santuário existencial, pois aí podem criar vidas que são completamente opostas às reais, provoca a perda de contacto com o semelhante e da vida em sociedade. Logo, e não menos absurdamente, o globo poderá vir a ser composto por mundos individuais dentro das conexões da globalização. Será que o indivíduo acabará por também se distanciar do seu próprio mundo?

10 de Janeiro de 2008 – O Primeiro de Janeiro

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