Na base do conhecimento está o erro

Duas notas

Ecos do dia-a-dia, nacional e internacional, que, curiosamente, não deixam de estar interligados, merecem alguma reflexão.

A minha primeira nota vai para a educação, pedra angular para o desenvolvimento de qualquer povo, e que em Portugal anda pela rua da amargura. Independentemente do tipo de estatuto do aluno que é aprovado, e do nível a que tal regimento se aplica, pois é indisfarçável que a preocupação dominante na elaboração desse género de regulamentação está desvirtuada. O objectivo visa a melhoria de dados estatísticos em vez do possibilitar, consolidar e incrementar de conhecimento.

Numa época em que caminhamos para um tempo em que o conhecimento será, e fará, a riqueza nacional e o pilar de diferenciação entre os países, Portugal implementa regras que permitem o contínuo transitar dos alunos de nível para nível até atingirem o ensino superior. Não é de espantar que, em provas orais universitárias, alunos não saibam que a NATO e a OTAN são a mesma organização e que para um desses alunos, quiçá para mais, um genocídio seja a morte dos genes.

Nasci noutra era. Num período em que a escola exigia de mim. Graças a Deus! Como tal, consigo evocar, entre outros, ARISTÓTELES (“Todos aqueles que já meditaram sobre a arte de governar, ficaram convencidos que o destino dos impérios depende da educação da juventude”), EPITECTO (“Apenas os que possuem instrução são livres”), ARIEL e WILLIAM JAMES DURANT (“A transmissão dos valores civilizacionais faz-se pela educação”) e JOHN DEWEY (“A educação não é a preparação para a vida; é a própria vida”).

Curiosamente, e no mínimo ironicamente, quando um cidadão se candidata a uma posição aberta por um Ministério ou qualquer outro tipo de organismo do Estado, é sujeito a uma série de provas em que o grau de exigência é muito elevado. Não questiono a necessidade de selecção. Contesto o tipo de candidato que tal metodologia selecciona.

Note-se que tal método é contranatura na vida profissional. Quando, quer para o primeiro emprego como para os possam a partir daí surgir, ao serviço de uma empresa privada somos contratados para o desempenho de uma função profissional, perante a necessidade de resolução de um problema nenhum tipo de apoio ou consulta nos é vedado. Antes pelo contrário, a consulta é incentivada pois, simultaneamente, permite observar a destreza no manuseio de várias fontes e a apresentação de uma solução mais célere.

A segunda nota vai para a promoção da democracia e para a mutabilidade de posições que a metamorfose das circunstâncias implica.

Já, em anteriores artigos, afirmei a minha admiração pelos norte-americanos. Aqui reafirmo o meu respeito pelo legado que os pais fundadores dos Estados Unidos (EUA) deixaram.

JOHN F. KENNEDY disse: “Recordemos que os primeiros grandes líderes da nossa nação foram também os nossos primeiros grandes professores”. No entanto, após essa geração iluminada, os norte-americanos pouco fizeram no sentido de adequar a sua Constituição aos tempos experimentados. Quantas emendas foram aprovadas após a vigência desta estirpe?

Os argumentos da actual administração norte-americana, sustentados na doutrina da preempção, para a intervenção em outros Estados se tal permitir a defesa no seu país não andam longe dos que são apresentados pelo governo turco para a operação no Curdistão. Se tais argumentos são bons para nós porque é que não servem para os outros?

A tomada de posição de acordo com a conveniência implica falta de credibilidade. Também demonstra falta de valores. E a credibilidade e os valores são nutridos na educação.

8 de Novembro de 2007 – O Primeiro de Janeiro

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4 responses

  1. J Seabra

    Muito bem escrito.
    Muito bem dissertado.
    Muito bem apresentado.

    Vê-se que andaste na Escola de um tempo ido.
    Não foi um tempo perdido.
    De certeza que não faltaste a muitas aulas.
    Bebeste e absorveste a vida.

    2010-03-01 at 14:59

  2. Maria Antónia Anacleto

    Eu também andei na Escola num tempo ido e bebi e absorvi a vida. Aproveite o comentário que diz tanto, porque diz tudo para deixar esta resposta ao que escreveste tão bem, Vicente.

    2013-01-07 at 0:46

  3. Muito bom!
    Sem surpresas para quem conhece o Vicente!

    2013-05-08 at 9:50

  4. De facto e independentemente de se ser contra ou a favor dos exames nacionais – eu sou claramente a favor da existência de momentos formais de avaliação, não sou a favor de tanta pompa & circunstância à volta deles, muito menos que devam ser realizados fora das salas habituais dos alunos, mas tudo isto são pormenores.. – não serão estas medidas avulsas – quando o governo mudar os socialistas acabam com os exames – que irão catapultar o nosso sistema de ensino para o que se faz na Finlandia.

    Bem sei que a Finlandia tem um PIB/Percapita triplo ou quadruplo do nosso, logo consegue dispor de meios físicos e humanos ( estes em especial ) do quais nós não conseguimos dispor, mas ainda assim estou certo que encarando os meios ao nosso dispor podemos & devemos fazer melhor.

    Os nossos filhos não irão encontrar um MERCADO DE TRABALHO, simplesmente porque as crianças que ontem fizeram o exame de língua portuguesa se acabarem a sua primeira fase de estudos aos 20/21 anos, muito provavelmente não irão encontrar qualquer EMPREGO à sua disposição, logo terão de ser eles a encontrar os seus próprios meios de subsistência.

    Comparar o que se fazia há 30 anos no ensino e o que se faz hoje, na minha humilde opinião faz tanto sentido como continuar a apostar em medidas avulsas para garantir que na prática tudo fica na mesma.

    Grande Abraço e parabéns pelo texto

    2013-05-08 at 10:07

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