Na base do conhecimento está o erro

Contra a corrente?

Os «herdeiros» de Pedro, o Grande parecem estar revitalizados. Pelo menos, no que respeita ao seu actual sucessor.

O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, está a demonstrar, ou melhor, a personificar o ressurgimento do seu país no palco mundial. E não o faz de qualquer maneira. Afirma a condição de superpotência russa, alicerçado nos pressupostos e mecanismos económicos do capitalismo. Por outras palavras, faz uso do sistema de controlo característico do aparelho político da ex-União Soviética mas abandona o sistema comunista fundindo estes factores na equação da democracia.

Atente-se nas afirmações proferidas aquando da aceitação como candidato do partido Rússia Unida às eleições legislativas de Dezembro, quando disse que para além de ser necessário a vitória do partido nas eleições também era “preciso eleger como Presidente uma pessoa honesta, capaz e moderna com quem possa trabalhar em equipa” (A nós, portugueses, esta afirmação devia recordar-nos algo ocorrido num passado não muito longínquo).

Aproveitando-se do aumento da volatilidade que emergiu na região do Médio Oriente após a invasão do Iraque e que nos últimos dias têm atingido as relações entre a Turquia e os Estados Unidos, depois de pacientemente ter utilizado a Organização de Cooperação de Shanghai para recuperar grande parte da antiga influência russa na região, Putin demonstrou visão diplomática ao participar na Cimeira dos Países do Mar Cáspio, em Teerão. Para além de ter sido a figura central do encontro, também conseguiu incrementar a posição russa junto do regime iraniano e reforçar a diplomacia russa nas reuniões e instâncias internacionais que discutem o programa nuclear iraniano.

Igualmente é de reter a estratégia seguida pela administração russa no que respeita ao projecto de defesa antimíssil norte-americano e à instalação de vários dispositivos na periferia das fronteiras da Federação Russa.

Incapazes de convencer os russos que o seu sistema não os ameaça e colocados perante as sucessivas tomadas de posição, decididas pelo Presidente russo, de abandono das convenções internacionais em armamento (não apenas do Tratado sobre Forças Convencionais na Europa, como também e principalmente do Tratado de Forças Nucleares de Médio Alcance), no investimento, durante 8 anos, de 100 biliões de dólares na modernização das suas capacidades militares e no recente anúncio do desenvolvimento russo em sistemas de mísseis nucleares completamente novos, deixaram os norte-americanos perante a possibilidade de serem responsabilizados, pela opinião pública, por uma nova corrida às armas nucleares na Europa.

É precisamente fazendo uso das conjunturas que se capitalizam as situações. E nisso, Vladimir Putin está a ser magistral.

Acontece que as medidas que o Presidente russo anuncia e toma têm implicações no sistema internacional. E estando o mundo de hoje cada vez mais interligado, as repercussões desses choques fazem-se sentir em primeiro lugar, na própria globalização.

Assim, na dicotomia entre a esfera económica e a esfera política global, aparentemente, os comportamentos dos actuais responsáveis dos Estados parecem estar a levar-nos para os tempos da Guerra Fria. Isto, numa altura em que o anterior Presidente da Reserva Federal norte-americana, Alan Greenspan, alertou para os perigos resultantes duma contra-corrente à globalização por parte dos políticos.

A ressurgência da Rússia na cena internacional deve-se ao capitalismo e ao know-how recebido das multinacionais ocidentais. Vladimir Putin sabe-o. Mas os norte-americanos também o sabiam e mesmo assim foram para o Iraque. Infelizmente, para e graças a nós, a Rússia de hoje acede muito melhor às suas riquezas naturais. Infelizmente, para e graças nós, também recupera a sua influência de outrora à conta dos nossos equívocos.

Seguir, de vez em quando, contra a corrente parece ser um refúgio humano. Ou é assim que vamos com a corrente?

25 de Outubro de 2007 – O Primeiro de Janeiro

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