Na base do conhecimento está o erro

A (de)pendencia da defesa europeia

As ocorrências nas relações entre os Estados Unidos da América (EUA) e a Rússia, por causa do escudo anti-míssil, e os seus efeitos na temática da defesa europeia merecem alguma reflexão.

A concepção de um guarda-chuva contra um ataque de mísseis balísticos intercontinentais não é nova. Data da década dos anos 60 do século passado e, apesar de ter sido recusada pelo então Secretário de Defesa dos EUA, Robert S. McNamara, nunca foi completamente esquecida. É precisamente aqui que encontramos a génese do programa “StarWars” que o Presidente Ronald Reagan, em 23 de Março de 1983, no seu discurso sobre segurança nacional, anunciou à Nação americana e ao mundo.

Após o colapso da ex-União Soviética, a perspectiva geopolítica mundial alterou-se e, em 1999, na revisão do conceito estratégico da Aliança Atlântica (NATO) o tema foi alvo de breve alusão, apenas no que respeitava às eventuais ameaças sobre os destacamentos de forças. Com os atentados de 11 de Setembro de 2001, os EUA abandonaram unilateralmente as convenções internacionais que proibiam o desenvolvimento deste tipo de sistemas e iniciaram a construção que um escudo contra eventuais ataques de países inimigos (Irão e Coreia do Norte). Os europeus, na Cimeira de Praga de 2002, aquiescendo com as propostas norte-americanas, foram dizendo que talvez não fosse má ideia pensar na problemática da protecção anti-míssil.

Ao contrário do que se verificou com as administrações norte-americanas e a administração Yeltsin, as relações entre a administração Bush e a administração Putin foram sempre tensas. Se o alargamento da NATO foi sempre visto com alguma desconfiança, a entrada dos Estados Bálticos na Aliança e as posições da actual administração dos EUA, no que respeita ao Iraque, Ucrânia, Bielo-Rússia e Geórgia, só serviram para aumentar essa suspeita. Alexei Arbatov (Vice-presidente do partido YABLOKO e membro da Academia de Ciências Russa) ao referir-se sobre a defesa anti-míssil afirmou que não há argumentos que convençam os russos que os projécteis a colocar na Polónia não são ameaça, pois estes só o perspectivam como tal. Igualmente refere que, contrariamente à sua posição de intolerância sobre a proliferação nuclear, com a instalação desses mísseis interceptores os EUA estão a aceitar que o Irão desenvolva armas atómicas ou não teriam a necessidade de se defender delas.

Porque é que a proposta de utilização do radar que a Rússia possui no Azerbeijão (Gabala) não é suficiente? Usualmente são três as fases do trajecto de um míssil balístico: Boost, mid-course, e terminal. Ora, o radar russo apenas faz a detecção de lançamentos e o sistema norte-americano, para além de a requerer também implica o seguimento para intercepção do alvo durante a 2ª fase do percurso, que é mais longa e onde a trajectória já está definida. Um sistema deste tipo visa a destruição do engenho, por uma “defesa sucessiva por camadas”, durante as duas primeiras fases do voo através de uma intercepção e não por uma perseguição ao alvo.

Então, para a Europa, que tipo de impacto provoca a elaboração de um sistema deste género? Uma vez que a construção do escudo anti-míssil que os EUA pretendem efectivar implica a colocação de dois dispositivos, um radar raios X e dez mísseis interceptores, em dois dos países europeus que durante a Guerra-fria estiveram para lá da Cortina de Ferro, respectivamente na Republica Checa e Polónia, os europeus devem considerar as implicações político-militares que emergem da utilização do território europeu para concretização de tal escudo: a segurança interior da Europa e o contacto exterior, i.e., diplomático, particularmente com a Rússia.

Qual é o risco, para a segurança europeia, da atitude tomada por Vladimir Putin de suspensão do Tratado sobre Forças Convencionais na Europa (FCE)? Respondendo à questão, convém lembrar que um dos pilares fulcrais da segurança e estabilidade europeia é precisamente o FCE. Foi através deste instrumento que a redução dos armamentos convencionais foi negociada e que foi estipulado um mecanismo de inspecções recíprocas e de comunicação mútua de grandes manobras militares que visavam o melhoramento da confiança Este/Oeste. Para além das suposições implícitas nesta suspensão note-se que, recentemente, a Rússia lançou o “Yury Dolgoruky”, o primeiro de uma nova classe (Borei) de submarinos de mísseis balísticos.

O mundo em que vivemos é regido pelo realismo e não pelo idealismo. Para a Europa, talvez fosse prudente um reequacionar das suas capacidades militares e das suas políticas de defesa.

19 de Julho de 2007 – O Primeiro de Janeiro

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