Na base do conhecimento está o erro

A (de)pendencia da defesa europeia (III)

Com esta terceira, e última, parte de considerações versando a temática da questão da defesa europeia, é apropriado fazer uma recapitulação das perspectivas abordadas nas duas anteriores reflexões.

Primeiro, vimos que as oscilações observadas nas relações entre os Estados Unidos da América (EUA) e a Rússia têm profundas implicações na Europa. Segundo, que a Europa hoje é o que é porque os EUA continuam a defender-nos.

Igualmente observamos que o mundo não é idealista, mas sim realista. E que a Aliança Transatlântica, razão de ser do mundo de hoje, terá que se adaptar num planeta centrado no Pacifico. Para tal, é necessário que ambos os seus pólos sejam fortes tanto económica como militarmente.

Por isso, não são suficientes as reformas, programas e iniciativas que foram implementadas pelos dirigentes da Aliança Atlântica (NATO) na Cimeira de Praga de 2002. Tendo em vista que a NATO deixou de estar geograficamente limitada, que os vários contingentes europeus que integram as forças da Aliança no Afeganistão irão sofrer mais baixas ao ponto de afectar seriamente opinião publica europeia e considerando a possibilidade de um falhanço dos objectivos delineados para a Força Internacional de Assistência à Segurança (ISAF), não podemos deixar que mesquinhices nacionais afectem a coesão europeia e que, consequentemente, abalem a ligação euro-atlântica. Como tal, era muito importante que a União Europeia (UE), e não somente alguns dos seus Estados-Membros, tomasse diligências concretas neste domínio, como a criação de uma verdadeira política comum de defesa. Tal posição representaria um sinal inequívoco que a Aliança Transatlântica é constituída por dois pilares decididos e coesos.

Mas não é somente este cenário que devemos brandir como argumento. Também não devemos descurar as intenções que alguns (Al-Qaeda, Taliban, Bin Landen, Hezbollah, etc) manifestam pela destruição dos princípios e valores que nos identificam. E igualmente não são de descartar as ameaças económicas e o risco que a ausência do poderio militar significam quando confrontados com alianças geoeconómicas, mesmo que temporárias, como as verificadas entre Pequim, Teerão e Moscovo.

Por sua vez, os diversos alinhamentos políticos que se verificam entre os grandes Estados-membros da UE face ao poderio alemão, em virtude do novo sistema de votação, levantam fantasmas do passado. Haverá o risco do reacendimento dos antigos ódios nacionalistas e novas divisões fracturantes na Europa? Felizmente que aqui, mais uma vez, será o vínculo transatlântico que proporcionará o pender para o equilíbrio e para a manutenção do diálogo intra-europeu.

A Europa, e tudo que ela representa, é algo por que vale a pena lutar e morrer. Martin Luther King, Jr., disse: “Se um homem não descobriu nada pelo qual morrer, não está pronto para viver”. Não me parece que abdicar de parte do investimento na esfera económica e social em prol da defesa e segurança, que permite a manutenção do nosso modo de vida, seja realmente pernicioso.

Para a Europa, o aumento do investimento em defesa não é apenas uma questão de afirmação internacional. Também é um imperativo para a sua sobrevivência e para a manutenção do seu nível de vida. Mas não só, porque ao analisar as circunstâncias que caracterizam o mundo, percebemos que tal decisão pode ser fundamental para o futuro da Aliança Transatlântica e, quiçá, da civilização ocidental. E o futuro, como nos ensinou Mohandas Gandhi, depende do que fazemos no presente.

Em suma, o tempo, para a Europa, é de consolidação dos mecanismos e meios que permitam a continuação da sua afirmação num mundo em convulsão. Ou seja, a Europa não deve ficar dependente, nem de outros nem das diferentes preferências que cada um dos seus Estados-membros tem.

E, como muito bem disse Francis Bacon, “Escolher o tempo próprio é ganhar tempo”.

16 de Agosto de 2007 – O Primeiro de Janeiro

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