Na base do conhecimento está o erro

A (de)pendencia da defesa europeia (II)

Já vinha de trás, mas a perda da primazia europeia no palco mundial deu-se definitivamente após a segunda grande guerra. Apesar de ser parte no lado vencedor da guerra, a Europa, principal campo de batalha do conflito mundial, estava completamente de rastos. Necessitava de se reconstruir e também de precaver futuras altercações entre os países europeus.

O auxílio norte-americano também aqui foi precioso e a constituição da North Atlantic Treaty Organization (NATO) tornou-se numa peça fundamental na elaboração da Europa pós-guerra. Ajudando, tanto aliados como inimigos, os Estados Unidos da América (EUA) lançaram as bases – e o exemplo – que veio a efectivar o entendimento franco-alemão e, consequentemente, uma nova Europa unida e convergida em objectivos comuns.

Contudo, se tal sentido foi conseguido nas áreas económica, social e política, não foi passível de obtenção, sem a presença dos EUA no seu meio, na área militar. Note-se o fracasso da Comunidade Europeia de Defesa. Assim, foi para a NATO que se transferiram a maior parte dos aspectos englobados nessa temática. Por outras palavras, os norte-americanos defendiam-nos.

É curioso notar que sessenta anos depois, os inimigos de ontem são os aliados de hoje. Mas apesar da estreita aliança que liga os EUA ao Japão e da protecção militar que aqueles dão a estes, o Japão dá sinais de uma insatisfação relativamente ao disposto no artigo IX da sua Constituição. Ora este artigo, para além de estipular o limite de gastos até 1% do PIB em aquisição de equipamentos destinados à defesa também impede o Japão de declarar guerra a outro Estado.

Os mesmos pressupostos são visíveis na base da recuperação europeia. Foi a capacidade de defesa norte-americana e o seu «compromisso» em nos proteger que viabilizou a nossa ascensão económica, pois uma vez que não tivemos necessidade em dispensar quantias consideráveis em defesa canalizamo-las para o crescimento económico e para o bem-estar social. No entanto, se os Estados europeus mantiveram as suas capacidades tout court, não parecem minimamente preocupados com a sua dependência militar, apesar do mundo estar a transformar-se.

O que é que nos diz a história? Que se repete. E a humanidade? Que aprende pouco. Reiterando as questões, respondo fazendo uso das palavras de Charles Snow, “a história não tolera as derrotas” e de Jonathan Swift “como é possível esperar que a humanidade ouça conselhos, se nem sequer ouve as advertências”.

O mundo altera-se e o seu centro desloca-se para o Pacifico. A regra vigente é que não há regras. As ameaças são transnacionais e as guerras são assimétricas. Então, podemos dar-nos ao luxo de ignorar a defesa e a segurança? Nos dias de hoje não basta ser economicamente forte. Num planeta centrado no Pacifico, a aliança Transatlântica precisa de ter dois elos resistentes, tanto económica como militarmente. Para além disso, nós, europeus, não podemos estar sempre a contar com as garantias dos outros. Também temos que as prestar.

Wu Ch’i (430 a.C. – 381 a.C.) disse: “A forma de manter o país seguro está na precaução”. Hoje, mais do que nunca, a precaução é uma responsabilidade. E para a Europa não é perda de tempo ou de recursos investir mais em defesa e segurança. Afinal, não é apenas o interior das nossas casas que devemos proteger. Também o local onde as edificamos deve ser protegido.

Por sua vez, George Bernard Shaw disse: “O homem razoável adapta-se ao mundo; o homem que não é razoável obstina-se a tentar que o mundo se lhe adapte. Qualquer progresso, portanto, depende do homem que não é razoável”. Para o melhor e, infelizmente, para o pior, tal é verificável.

Como a improbabilidade tem a propensão para se transformar numa possibilidade que mais cedo ou mais tarde é uma inevitabilidade, é chegada a altura de o homem razoável servir de contraponto ao homem que não é razoável.

2 de Agosto de 2007 – O Primeiro de Janeiro

One response

  1. Sem dúvida que sim, e ainda mais agora que os EUA, estão já a reduzir a sua despesa militar global.

    Todavia qualquer caminho terá de ser sempre equacionado, senão a 27 pelo menos a 17..

    Uma Guarda Costeira Europeia, pode ser o primeiro passo nessa necessária ( quiçá inevitável) conjugação de esforços.

    Esperemos que as barreiras culturais / linguísticas não se interponham criando entropias inultrapassáveis.

    2013-01-25 às 11:18

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