Na base do conhecimento está o erro

Lições e exemplos

Portugal, no que respeita a diversos parâmetros de análise quanto ao comportamento e aplicação dos inúmeros incentivos e apoios comunitários, já foi classificado com um modelo a seguir. Hoje, infelizmente, é referenciado como um exemplo negativo.

Considerando factores estruturais e conjunturais, variadas explicações foram aventadas. De uma maneira ou de outra, a maioria dessas explanações estão sustentadas nos vectores estruturais, sendo, dentro destes, o argumento mais invocado, quer pelas posições optimistas quer pelas pessimistas, a dimensão do nosso país.

Não é de estranhar que analogias, entre Portugal e outros Estados-membros da União Europeia, sejam utilizadas para ilustrar os raciocínios esgrimidos. O exemplo mais utilizado nessas comparações é o da Irlanda.

Ao abordar a comparação entre Portugal e a Irlanda e dos diferentes resultados que ambos os países apresentam nos dias de hoje, vou referenciar, no que a nós se refere, algumas escolhas que, bem ou mal, fizemos no passado, sem pretender discutir a justeza das decisões tomadas mas somente reflectir sobre as lições delas tiradas.

O Tratado de Methuen é uma delas. Se não há duvida que à época, era mais vantajoso para Portugal, como aliás foi economicamente demonstrado, optar pela produção vinícola em detrimento da produção têxtil também é inquestionável que tal escolha teve implicações na evolução e no nosso desenvolvimento tecnológico.

Ironicamente, quando, no quadro criado pela Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA), a opção recaiu no desenvolvimento da industria têxtil e na produção de produtos mais baratos para competir num mercado mais alargado, foram os factores conjunturais a determinar que tais escolhas apenas teriam efeitos a médio prazo. Sem inovação capaz de acompanhar o ritmo de evolução tecnológica do mercado e de apresentar novos produtos, manter um nível competitivo apenas baseado numa mão-de-obra mais barata foi a escolha errada. Outras regiões do mundo, onde não existiam preocupações com direitos sociais, certamente que o iriam fazer mais baixo do que nós. Mais uma vez, optou-se pelo caminho mais fácil.

O mesmo efeito é actualmente notado no sector da indústria automóvel. Os sucessivos apoios que foram facultados pelos diversos governos às várias multinacionais que se instalaram no nosso país não são suficientes para as segurar. Neste caso, é a nossa localização geográfica que joga contra nós.

Quanto à Irlanda, país que também tem uma posição geográfica periférica, é curioso notar que nos anos 70, o governo irlandês deixou de apoiar a implementação da industria automóvel no seu território e que, nos anos 80, a mesma atitude foi posta em prática no que respeita à industria têxtil. Ou seja, não tiveram medo em promover mudanças sectoriais e formaram o seu capital humano para tal. Por outras palavras, qual é a importância dos sinais dados pelas opções governamentais para os investidores internacionais?

Portugal necessita de um planeamento estratégico permanente que promova mudanças sectoriais. Necessita de não se esquecer que os apoios a projectos como a Expo e o Vale do Ave condicionam as opções do país no longo prazo. Necessita de ter em mente que projectos como a Ota e o TGV podem ter o mesmo tipo de efeito nefasto para o futuro. Necessita de reflectir nas lições do nosso passado e no exemplo dos que fazem bem.

Realmente a dimensão não é um obstáculo. Se uns o conseguem porque é que outros também não o conseguirão? Mas, no meio disto, é engraçado notar que há um factor estruturante ao qual, aparentemente, pouca importância é dada mas que é possuidor de uma relevância fundamental: as características culturais de uma população. Será que a Irlanda seria o que é se, em vez dos irlandeses, fossem os portugueses os seus habitantes?

12 de Abril de 2007 – O Primeiro de Janeiro

2 responses

  1. Incrível a ousadia de discutir consigo oaeroporto ou o TGV.
    Mas aqui vai.
    Penso que o aeroporto não é necesário. O petróleo não se irá ficar pelos preços a que está hoje, mais cedo ou mais tarde irá subir mais uma vez.
    Por isso, penso que as viagens de avião terão um decréscimo grande e o aeroporto de Lisboa chegará.
    Isto acontecerá de certeza, como já acontece, no centro da Europa, em que todas as pessoas andam preferencialmente de comboio.
    Portugal dempre ficou de lado no caminho de ferro e fez-lhe diferença.
    Os camiões deveriam ter os dias contados.
    As mercadorias deveriam ser transportadas em bons, rápidos comboios.
    Por tudo isto, a mim parece-me, que se deveria deixar cair o aeroporto e fazer comboios, rápidos e bons para passageiros e para mercadorias.
    Não podemos continuar a ser periféricos ao nível dos transportes.

    2008-12-04 às 19:49

  2. VFS

    Inteiramente de acordo.
    Julgo que a feitura dos dois investimentos será danosa para Portugal.
    E, se pudesse decidir, também apostava no TVG.

    Fala-se num determinado modelo de aeroporto que, as novas gerações de aviões devido à sua cada vez maior autonomia de vôo, tornarão obsoleto.

    2008-12-04 às 22:25

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